quinta-feira, 10 de outubro de 2024

MEMÓRIA OU DESILUSÃO

 MEMÓRIA OU DESILUSÃO


Não se quanddo eu nasci
não me lembro e sou muito ruim de memórias
sei que chovia, como sabes, não sei é só um palpite
agora estou cheio de melancolia de raiva de alegria
a rua onde eu morava existe
mas não é essa onde eu moro
eu não sou nem brasileiro nem coisa nenhuma
o que é ser um brasileiro ou coisa nenhuma
eu sou brasileiro e sou alguma coisa
não, não me lembro, sei que a saudade
enterrada nesse corpo dói como se eu
mesmo fosse um desenho de salvador dalí
ou uma figura picassiana desmontada
e reconstruída sem olhos sem mãos sem boca.
Chove lá fora, não lá fora não,
fernando pessoa sabia muito bem que
onde chove é na alma.
Tenho a mais absoluta certeza que
walt whitman entenderia tudo isso de que estou falando
ou melhor escrevendo (posso dizer aqui que estou rindo?
e faço croqui e esboços e essas palavras são a mesma
coisa o mesmo significado o mesmo significante e lá
fora as estrelas começam a despontar no céu.
Me lembro de minha mãe e de meus irmãos,
lembro de meus avós, me lembro do conto
que escrevi e rasguei, me lembro do meu
primeiro quadro, não não me lembro tão bem
desse momento mas me lembro do momento em
que vi na televisão o pincel deslizando com a tinta
preta sobre a tela branca e me fascinando a alma.
Quando eu nasci, isso eu sei muito bem,
ouvi um anjo desses meio retos que vivem na luz
dizendo: esse menino vai ser um gênio.
Por isso me dei tantos nomes: einstein, dalí, max,
E percebo que sou apenas o Ataide arábe de sempre.
Hoje que a melancolia bate na porta componho esse
verso longo igual uma baleia querendo respirar um pouco
eu que amei tantos e por tantos fui odiado
eu que fui invejado sem motivos, eu meu Deus, eu mesmo,
esse ser feito de barro que tu engendrasse também sem motivo.
Ah, saudade de ser com alegria. 

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