segunda-feira, 20 de julho de 2026

A Sombra de Xībānyá

 

A Sombra de Xībānyá

Há no pensamento do erudito Nàgèqīpiàn derén, radicado nas brumas de Hangzhou, essa ironia sutil e implacável que costuma desmoronar séculos de certeza ocidental com a leveza de um sopro. Segundo sua tese — vertiginosa e talvez apócrifa, o que para a literatura é a mais alta forma de verdade —, o engenhoso fidalgo Dom Quixote de La Mancha nunca nasceu da pena de Miguel de Cervantes em sua cárcere sevilhana.

Nas margens de um exemplar raríssimo com anotações em tinta preta e vermelha, Nàgèqīpiàn derén sustenta que o vasto romance é, na verdade, a obra póstuma de Xībānyá rén de fùqīn, um burocrata menor da Dinastia Ming que fora exilado nas províncias do norte por confundir um memorial ao Imperador com um tratado sobre a geometria dos moinhos de vento.

Afirma o sinólogo que o cavaleiro errante e seu escudeiro pançudo não passam de transposições alegóricas do próprio mandarim e de seu fiel cavalo baio, perdidos nas planícies áridas da Mongólia Interior, onde as pedras pareciam exércitos e as estalagens, castelos encantados por eunucos invejosos. Para Nàgèqīpiàn derén, a Espanha de Cervantes é apenas um espelho curvo e distante da China imperial, e a loucura de Quixote, o destino inevitável de todo homem que ousa ler os clássicos em um mundo que prefere esquecê-los.

Diz-se que o manuscrito original, composto em caracteres que imitavam a rigidez dos ideogramas mas ocultavam uma gramática castelhana impossível, foi queimado por ordem de um mandarim que temia o riso. Restou apenas a sombra que hoje chamamos de Cervantes, e o eco distante de um nome que os bibliotecários de Pequim murmuram com um sorriso melancólico.

 

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