segunda-feira, 2 de março de 2026

Etéreo


Sinos partidos no vento.
Catedrais com vitrais cegos —
o ouro descascado
como um dente antigo.

Roma ecoa
em latim rachado.

O cordeiro perdeu o pasto,
os pastores vendem mapas
de um céu hipotecado.

Silêncio.

Entre colunas tombadas
cresce hera sobre evangelhos,
e a cruz, antes farol,
é ferrugem na névoa.

Mas não há triunfo nos bosques.

Os deuses de mármore
têm olhos vazios;
Baco tropeça bêbado
na própria vinha,
e Vênus, cansada,
vende conchas de plástico.

Nem o incenso
nem o vinho
salvam o homem
de sua própria poeira.

Civilizações caem
como folhas fora de estação —
cristãs ou pagãs,
todas prometem eternidade
com a mesma tinta frágil.

O mundo antigo
e o mundo santo
partilham o mesmo barro.

E sob o céu etéreo,
indiferente,
o homem ergue templos
para esconder
o vazio
que o sustenta.

Nenhum comentário:

Postar um comentário