sábado, 28 de março de 2026

ENTRADA FRIA - poemas macabros

 ENTRADA FRIA

Nesse casarão podre e fétido — que eu invado —

O ar é pesado, um mofo agradável —

Meu olhar cai em um prato — na mesa —

De vampiros vivos — que delícia —


Não sei se os como — ou se me comem —

Mas a apresentação é irrepreensível.



A VISITA DE CORTESIA

Nunca mais verei teu rosto —

Um alívio — de certa forma —

Já que mortas — e muito bem postas —

Uivas os fantasmas — da tua dor — além.


É um barulho — eu confesso —

Que combina — com o café frio —

E com a paz — desse túmulo — vazio.




UM ENCONTRO DE ÚLTIMA HORA

Nos cemitérios da vida —

Onde o solo é frouxo e o sono é longo —

Nossos ossos se abraçaram —

Sem o incômodo — da carne —

Sem o atrito — das vontades —


Um encaixe — perfeito —

De cálcio e silêncio —

Finalmente — pudemos — descansar.




O DEBUTANTE

Nessa fascinação — precoce —

E ao longo — de toda a vida —

Pela doença — pelo morrer —

E pela morte — bem servida —


Um brilho — estranho — no olho —

Um pulso — que esquece — de bater —

Que belo — presente — de aniversário —

Para quem — não quer — mais crescer.




O CATÁLOGO DAS ESCOLHAS

Nesse casarão de penumbras —

Onde o pó é o tapete da sala —

Escolho o modo — do adeus —

Como quem escolhe — uma gala —


Crucificação — ou tiro —

Afogamento — ou luz —

Enforcamento — ou faca —

O que mais — te seduz?


Sufocamento — no armário —

Congelamento — no jardim —

Um enterro — prematuro —

É o começo — do meu fim —


A guilhotina — no pátio —

Espera — com precisão —

Para o último — abraço —

Nessa mórbida — fascinação.



A ESTAÇÃO DO GELO

Fortemente ligadas —

A temas de Inverno —

As flores — de geada —

No jardim — do inferno —


Teu rosto — gentil —

Tão — pálido — e branco —

Despoja — toda a esperança —

Nesse — gélido — banco —


De — Transcendência —

Não há — mais — sinal —

É uma estação — de Morte —

Num — brilho — glacial —


E uma metáfora — perfeita —

Para o fim — que se aceita —




BILHETE DE IDA

O apito — corta — o nevoeiro —

O Trem da Alma — chegou —

O trilho — é um fio — de aço —

Que o tempo — enfim — esticou —


Devo — embarcá-lo — agora —

Com — discreta — polidez —

Sem — meus parentes — na fila —

Pela — primeiríssima — vez —


Uma — viagem — solteira —

Sem — heranças — a carregar —

Apenas — o silêncio — do vagão —

E — o prazer — de não — voltar —



A COLHEITA DO POMAR

No quintal — de solo — infértil —

Onde a sombra — criou — cor —

Brota a safra — mais — hostil —

Frutos — do Ódio — e da Dor —


Fantasmas — carniceiros —

Pendem — de galhos — vãos —

Esperando — os herdeiros —

Com — facas — nas mãos —


Não — se colhe — o que — se planta —

Nessa — terra — de rancor —

Pois — a fome — que — espanta —

É — o banquete — do — Horror —




A AGENDA DA MANHÃ

Astrid — a governanta —

Com seu — andar — de — pavor —

Que horas — são — afinal —

Para o — Banho — de Dor? —


A água — está — fervente —

Ou — no ponto — do gelo —

Onde — o grito — se sente —

E — se eriça — o cabelo? —


Bolina — minha — cara —

Cadê — os gemidos? —

O silêncio — me ampara —

Mas — fere — os ouvidos —


A casa — está — muito — calma —

E o dia — está — muito — azul —

Tragam — a angústia — da alma —

Do — Norte — até o — Sul —

Nenhum comentário:

Postar um comentário