ENTRADA FRIA
Nesse casarão podre e fétido — que eu invado —
O ar é pesado, um mofo agradável —
Meu olhar cai em um prato — na mesa —
De vampiros vivos — que delícia —
Não sei se os como — ou se me comem —
Mas a apresentação é irrepreensível.
A VISITA DE CORTESIA
Nunca mais verei teu rosto —
Um alívio — de certa forma —
Já que mortas — e muito bem postas —
Uivas os fantasmas — da tua dor — além.
É um barulho — eu confesso —
Que combina — com o café frio —
E com a paz — desse túmulo — vazio.
UM ENCONTRO DE ÚLTIMA HORA
Nos cemitérios da vida —
Onde o solo é frouxo e o sono é longo —
Nossos ossos se abraçaram —
Sem o incômodo — da carne —
Sem o atrito — das vontades —
Um encaixe — perfeito —
De cálcio e silêncio —
Finalmente — pudemos — descansar.
O DEBUTANTE
Nessa fascinação — precoce —
E ao longo — de toda a vida —
Pela doença — pelo morrer —
E pela morte — bem servida —
Um brilho — estranho — no olho —
Um pulso — que esquece — de bater —
Que belo — presente — de aniversário —
Para quem — não quer — mais crescer.
O CATÁLOGO DAS ESCOLHAS
Nesse casarão de penumbras —
Onde o pó é o tapete da sala —
Escolho o modo — do adeus —
Como quem escolhe — uma gala —
Crucificação — ou tiro —
Afogamento — ou luz —
Enforcamento — ou faca —
O que mais — te seduz?
Sufocamento — no armário —
Congelamento — no jardim —
Um enterro — prematuro —
É o começo — do meu fim —
A guilhotina — no pátio —
Espera — com precisão —
Para o último — abraço —
Nessa mórbida — fascinação.
A ESTAÇÃO DO GELO
Fortemente ligadas —
A temas de Inverno —
As flores — de geada —
No jardim — do inferno —
Teu rosto — gentil —
Tão — pálido — e branco —
Despoja — toda a esperança —
Nesse — gélido — banco —
De — Transcendência —
Não há — mais — sinal —
É uma estação — de Morte —
Num — brilho — glacial —
E uma metáfora — perfeita —
Para o fim — que se aceita —
BILHETE DE IDA
O apito — corta — o nevoeiro —
O Trem da Alma — chegou —
O trilho — é um fio — de aço —
Que o tempo — enfim — esticou —
Devo — embarcá-lo — agora —
Com — discreta — polidez —
Sem — meus parentes — na fila —
Pela — primeiríssima — vez —
Uma — viagem — solteira —
Sem — heranças — a carregar —
Apenas — o silêncio — do vagão —
E — o prazer — de não — voltar —
A COLHEITA DO POMAR
No quintal — de solo — infértil —
Onde a sombra — criou — cor —
Brota a safra — mais — hostil —
Frutos — do Ódio — e da Dor —
Fantasmas — carniceiros —
Pendem — de galhos — vãos —
Esperando — os herdeiros —
Com — facas — nas mãos —
Não — se colhe — o que — se planta —
Nessa — terra — de rancor —
Pois — a fome — que — espanta —
É — o banquete — do — Horror —
A AGENDA DA MANHÃ
Astrid — a governanta —
Com seu — andar — de — pavor —
Que horas — são — afinal —
Para o — Banho — de Dor? —
A água — está — fervente —
Ou — no ponto — do gelo —
Onde — o grito — se sente —
E — se eriça — o cabelo? —
Bolina — minha — cara —
Cadê — os gemidos? —
O silêncio — me ampara —
Mas — fere — os ouvidos —
A casa — está — muito — calma —
E o dia — está — muito — azul —
Tragam — a angústia — da alma —
Do — Norte — até o — Sul —
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