domingo, 19 de outubro de 2025

O Preço do Trono

I. O outono se arrastava sobre o Reino de Ordin como uma doença antiga, trazendo não o frio cortante do inverno, mas uma umidade pegajosa que se agarrava à pedra do Castelo Lã de Aço. O Rei Lamex, um homem cuja juventude se esvaíra sob o peso de um elmo de batalha, estava à frente da Mesa Pintada, os nós dos dedos brancos sobre o pergaminho amassado. Seus quarenta anos eram marcados por uma barba ruiva e grossa, salpicada de fios brancos, e por olhos azuis que haviam visto muito sangue e pouca paz. Ele era Lamex, o Inflexível, um apelido que lhe custara a vida de três irmãos e a lealdade de metade de seus vassalos. Mas agora, não era a espada que lhe importava, mas o berço de uma nova linhagem, e para isso ele precisava da Princesa Lyssa de Flux, cujo ventre, diziam, era tão fértil quanto as terras que seu pai guardava com unhas e dentes, e cuja beleza era a única lenda em que Lamex ainda acreditava. Os conselheiros murmuravam sobre as despesas da guerra, sobre os suprimentos de grãos em baixa e o humor sombrio do povo, mas Lamex mal os ouvia; ele via apenas Lyssa e a estabilidade que ela traria ao seu reino turbulento.

II. A embaixada enviada ao Reino de Flux havia retornado há três dias, e o embaixador, um nobre de pouca coragem e muita vaidade chamado Sor Galthus, parecia um espectro. Suas vestes de veludo estavam manchadas de lama e seu rosto, pálido como a neve de verão. "Fale, homem! Onde está a resposta do Rei Valerius?" A voz de Lamex ressoou pela câmara de pedra com a força de um trovão. Galthus engoliu em seco, olhando para os pés como se as lajes pudessem lhe dar um conselho. "Vossa Graça... O Rei Valerius... ele se recusou. Não apenas rejeitou a proposta, mas fez pouco caso dela. Ele disse... ele ousou dizer..." O embaixador pigarreou, a voz mal audível. "Que o sangue de Ordin já não era digno de misturar-se ao de Flux, pois a coroa de Ordin estava manchada com a traição e a ganância. Ele disse que a Princesa Lyssa estava prometida a uma paz mais estável, e que vós, Majestade, não passáveis de um cão raivoso que, embora de raça nobre, deveria ser sacrificado antes de morder a mão que lhe oferecia um osso."

III. Um silêncio gélido desceu sobre a câmara, mais pesado que o gelo mais espesso do Norte. Lamex não gritou; ele apenas sorriu, um gesto lento e contido que não alcançou seus olhos. Ele pegou uma taça de prata na mesa, cheia de vinho tinto, e bebeu o gole de uma vez, como se estivesse engolindo veneno. "Então, é assim. Valerius, o Velho, escolhe o caminho da loucura. Ele pensa que as muralhas de Flux são mais altas que a fúria de um Rei desprezado." Lamex bateu a taça na madeira, o clangor ecoando a raiva silenciosa. "Galthus, prepare cartas. Para todos os vassalos. Para Sor Kaelan, o Bárbaro, no Desfiladeiro da Sombra; para Lorde Alaric, o Verme, em sua torre úmida; até mesmo para a Dama Elara, a Sábia, no Oeste. Eles terão a guerra que o velho Valerius tanto deseja evitar. E desta vez, Galthus, não trarei apenas Lyssa; trarei o trono de Flux, pedaço por pedaço, até que o velho cão se ajoelhe e beije a bota manchada de sangue do seu novo mestre."

IV. A notícia da recusa e da iminente guerra se espalhou por Ordin como fogo em palha seca. Nas tabernas e nos mercados, os homens falavam do orgulho de Valerius e da vaidade de Lamex. Os jovens e os camponeses temiam o recrutamento, enquanto os Lordes e a nobreza sentavam-se em suas fortalezas, ponderando as perdas e os ganhos de tal empreendimento. Lorde Alaric, conhecido por sua cautela traiçoeira, enviou uma carta a Lamex com promessas vazias de apoio, enquanto secretamente fortalecia suas próprias muralhas e enviava um corvo noturno para Flux, oferecendo neutralidade em troca de terras. Em Ordin, as forjas fumegavam dia e noite, o som do martelo na bigorna se misturando ao choramingar das crianças e às orações desesperadas das mães.

V. Do outro lado da fronteira, em Flux, o Rei Valerius, um homem robusto e de cabelos prateados, estava na sacada de seu castelo. A Princesa Lyssa estava ao seu lado, com a beleza que a todos encantava e uma inteligência que a fazia temer. Ela tinha cabelos cor de mel e olhos verdes, mas havia uma sombra neles que não vinha da luz. "Ele virá, Pai," disse Lyssa, a voz calma, mas com a firmeza de um fio de aço. "Lamex não perdoa uma afronta. Ele não busca apenas um casamento; ele busca a submissão. Nosso reino é fértil, e o dele é estéril em lealdade e recursos. Ele usará meu nome como um pretexto para o roubo."

VI. Valerius balançou a cabeça, o maxilar apertado. "Deixe-o vir. Nossas muralhas são antigas, mas resistem, e meu exército, embora menor, é leal até o último homem. E o mais importante, Lyssa, eles lutam por um lar, não por um capricho. Mas é em você que ele tem os olhos, e é isso que me preocupa. Ele é um homem com apetite de lobo, e você é a presa mais valiosa." Ele se virou para ela, segurando seus ombros com mãos calejadas. "Você não será dele. Nunca. Eu lhe prometi um homem que  a mereça, um homem que honre nosso sangue, não um açougueiro coroado."

VII. Os exércitos se encontraram pela primeira vez no Campo das Lágrimas, um vale pantanoso onde riachos finos serpenteavam entre pedras cobertas de musgo. Lamex, em sua armadura escura e pesada, liderava a vanguarda, sua bandeira exibindo o Leão Esmagador. O primeiro confronto foi uma carnificina, sem estratégia ou honra, apenas o ranger de aço contra aço e os gritos agudos de homens morrendo no lodo frio. Kaelan, o Bárbaro, com seus guerreiros do Norte, abriu um caminho brutal através do flanco esquerdo de Flux, provando que sua lealdade podia ser comprada com promessas de pilhagem. Contudo, as perdas de Ordin foram pesadas; a lama engolia cavalos e homens com igual indiferença, e o cheiro de sangue e vísceras pairava no ar como uma névoa espessa.

VIII. As batalhas se seguiram por meses, transformando a fronteira em um campo de ossos. Lamex avançava lentamente, tomando castelos menores e aldeias, cada vitória custando-lhe mais do que a anterior. Em Lã de Aço, o tesouro diminuía, e a fome começava a assombrar o povo. Rumores de deserção e motins corriam pelos acampamentos. Em uma noite fria, Lamex convocou seu fiel Mestre de Guerra, Sor Hektor. "Hektor, a guerra está nos drenando. Nossos homens estão cansados, e o ouro acabou. Valerius é mais teimoso do que pensei." Lamex tirou as luvas e esfregou as mãos, revelando cicatrizes antigas. "Devemos dar um golpe decisivo. Faremos uma última oferta. Uma que ele não poderá recusar, mas que ele pagará com o dobro de dor se a rejeitar."

IX. Uma segunda embaixada foi enviada, não de paz, mas de ultimato, liderada por um cavaleiro que era a antítese de Galthus, um homem chamado Sor Darian, conhecido por sua ferocidade e poucas palavras. Ele foi levado à presença de Valerius, que estava sentado em seu trono, parecendo mais velho e mais rígido, com Lyssa ao seu lado. Darian apresentou o pergaminho enrolado com o selo real de Lamex. A oferta era simples e brutal: a mão de Lyssa, o controle de três fortalezas da fronteira e um tratado de paz que faria de Flux um vassalo de Ordin. Valerius leu, sua respiração pesada e lenta.

X. "Majestade," disse Valerius, a voz rouca, "vossa oferta é uma afronta, mas não sou cego. Vejo o sangue que o seu Mestre derramou. A guerra é uma boca que não se farta. O que ele me garante de que, após eu lhe dar minha filha e três fortalezas, ele não tomará o resto dentro de um ano?" O Rei de Flux amassou o pergaminho na mão. Darian, sem se mover, respondeu com um tom que não admitia réplica: "O Rei Lamex oferece sua palavra, e um acordo de não agressão por dez anos. É o seu preço final, e o único que manterá a cabeça de Vossa Graça sobre os ombros. A recusa significará um cerco ao seu castelo, e quando as muralhas caírem, Vossa Graça não terá honra para lhe comprar um enterro decente, e a Princesa Lyssa será levada à força para a cama de Lamex, sem a pompa de um casamento e com a humilhação de uma concubina."

XI. Valerius olhou para Lyssa. Ela devolveu o olhar, e em seus olhos, ele não viu o medo que esperava, mas uma chama fria, calculista. "Pai," ela disse, a voz como seda, mas com um punhal escondido. "Há honra na morte, mas há poder na sobrevivência. Diga ao cão que aceitamos. Diga que o sangue de Valerius se misturará ao dele. Mas diga também que, quando ele beber de nossa taça, ele deve se lembrar de que as filhas de Flux são como as suas flores; bonitas na superfície, mas venenosas em sua raiz." O rosto de Valerius se contorceu em dor. "Nós aceitamos," ele sibilou para Darian, a derrota amarga na garganta.

XII. Lamex recebeu a notícia da aceitação com uma risada rouca e vitoriosa. Os Lordes de Ordin beberam e festejaram, a guerra substituída pela perspectiva de um casamento e paz. Contudo, em Flux, o silêncio era pesado, e Lyssa se preparava para a viagem, empacotando não apenas sedas e joias, mas também um pequeno frasco de vidro, com um líquido incolor e sem cheiro, presente de uma velha megera do pantanal. O casamento seria em Lã de Aço, em menos de uma lua, uma união de conveniência e de ódio mal disfarçado. Lamex teria sua noiva, sua paz e as fortalezas. Mas no dia em que o cortejo da Princesa Lyssa atravessou os portões de Lã de Aço, a primeira nevasca do ano começou a cair, um prenúncio sombrio. Quando a porta de sua câmara se fechou, e Lamex finalmente ficou sozinho com a sua noiva, as taças de vinho foram servidas. A Guerra do Casamento havia chegado ao fim, mas a Princesa Lyssa não havia perdido a sua guerra pessoal. O que ela faria com seu novo poder? Lamex beberia e dormiria como um rei em sua nova estabilidade, ou o veneno de Flux encontraria o seu caminho, lento e inevitável, para o coração de Ordin, transformando a paz em uma armadilha ainda mais mortal? A noiva sorriu, e o Leão Esmagador estremeceu em seu estandarte.

Nenhum comentário:

Postar um comentário