quinta-feira, 23 de outubro de 2025

Gingon

 Sob as luzes frias de São Paulo, onde o asfalto é o livro sujo da madrugada, o horror tem nome e pintura: Gingon. Não é apenas uma criatura. É a cidade que se dobra, a arquitetura da miséria vestida de fantasia, um conto-poesia brutalista, direto na jugular, com o sobrenatural espreitando no escuro da cracolândia e dos becos sem lei.


Gingon

São Paulo é um osso duro,

Ruge em concreto, fede a mijo e metal.

O céu engole estrelas, cospe névoa cinza.

Na sarjeta, a vida é curta,

E o medo, longo.

À meia-noite, a transformação:

Não é lobisomem. É a carne da rua

Que se refaz em lona, látex, terror.

O terno rasgado, a pele de indigente,

Virando macacão berrante, imundo.

Gingon. O palhaço.

Nariz de plástico vermelho-sangue,

Sorriso que é um corte na alma da cidade.

Não vem do circo, vem do lixo,

Do poço cego onde a decência afoga.

Ele caça o descarte. O avesso.

Quem a metrópole cuspiu.

A mendiga dorme no papelão úmido.

Sonha com pão, não com a boca

Que se abre em abismo sobre o seu destino.

O cheiro de álcool, o torpor da droga,

São a anestesia falhada.

Gingon, passo de algodão, pé sujo no lodo.

Um abraço frio, rápido, sem piada.

E o papelão fica vazio. Apenas o cheiro,

A prova de que existiu e sumiu.

(Direto, sem lirismo, o fato cru: consumida).

A puta, salto quebrado, esquina sombria,

Oferece o corpo que a cidade já levou.

Um policial corrupto, o medo e o desejo,

Tudo junto no preço vil.

Gingon aparece como um cliente.

Silencioso.

O riso dele é grave, não tem alegria.

"Qual o seu preço, querida?" A voz é graxa.

Ela vê o horror por trás da maquiagem barata,

Tarde demais. É o último cliente,

O que não paga com dinheiro,

Mas com o vácuo.

(Um grito abafado, um chicote de seda roxa. Fim).

O policial de viatura, à caça, farol que varre o muro.

Tira o plantão, a escopeta no colo. Cansado.

Faz parte do jogo, conhece a violência da espécie.

Mas Gingon é outra lei, a da fome primal.

No beco, o rádio chia, a luz falha.

O palhaço está de pé, mais alto que a noite.

O revólver treme na mão treinada.

"Parado! Identifique-se!"

Gingon só ri. Um som de metal raspando.

A tática, a estratégia, a lei do homem,

Tudo estraçalhado pela pura, grotesca selvageria.

A farda rasga, o distintivo cai.

(Sangue no asfalto, não mais azul, mas vermelho vivo. A cidade respira fundo).

Mulheres, homens, o transeunte bobo que erra a rota,

O playboy embriagado, o trabalhador varado.

A matéria-prima é o medo, a solidão da hora grande,

O anonimato das vielas.

Gingon se nutre do desgosto, do esquecimento.

Ele é o castigo por ter ignorado o abismo

Que corre sob a calçada.

Rubem Fonseca escrevendo o registro de ocorrência,

Enxuto, cínico, o horror sem floreios.

Stephen King dando o corpo, a forma, o It brasileiro,

Que se veste de miséria e terror noturno.

O palhaço que não te quer alegre, mas te quer. Ponto.

Noite após noite.

O boato corre nas delegacias e nas bocas de fumo.

Não é facção, não é vingança. É Gingon.

A criatura de São Paulo. A poesia da putrefação.

E amanhã, sob o sol indiferente,

Só resta a sujeira:

Um pedaço de látex furado. Um cheiro de óleo rançoso.

E o silêncio pesado da cidade

Que esconde o que não quer nomear:

O horror não está lá fora. Está debaixo da nossa pele.

Vestido de palhaço, esperando o turno

De devorar o que restou de nós.

Fim do turno. Silêncio. Até amanhã.

O Palhaço tem fome. E São Paulo nunca dorme.

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