A frieza da chegada a Auschwitz não se media apenas pelo cheiro de carne queimada que penetrava a alma, nem pela brutalidade imediata dos comandos gritados em alemão gutural, mas também pela desorientação que desfazia a coesão de um povo. Henri, um homem da pequena Sighet que até então só conhecera um tipo de judaísmo — o seu —, via-se subitamente atirado a uma Babel de sofrimento, um campo onde a morte, essa niveladora suprema, ainda permitia a sobrevivência de velhas e ridículas divisões, quase a fazer crer que a civilização lá fora, com os seus preconceitos milenares, havia sido, afinal, transplantada para aquele solo de cinzas.
Os recém-chegados, vindos de todos os cantos da Europa onde a Noite havia caído, foram separados por filamentos invisíveis, mas espessos como arame farpado. De um lado, os falantes de Ladino, a maioria vinda dos Balcãs, da Grécia e de Salónica, traziam consigo a solaridade trágica do Mediterrâneo; seus olhos eram escuros, seus movimentos, expansivos demais para os corredores da morte, suas vozes, altas, cheias de um ritmo que era, para os outros, um ruído. Eles se agarravam à sua língua antiga, o judeu-espanhol, com um fervor que lhes dava uma arrogância, um senso de exclusividade que os fazia estranhos e até mesmo um pouco distantes, como se a sua tragédia, falada em tom de epopeia, fosse de alguma forma mais nobre ou mais isolada.
Do outro lado, o grupo maior, o dos Asquenazes, falantes de Iídiche, originários da Polônia, Hungria e Romênia, que pareciam ter trazido consigo a geada da Europa Oriental, carregavam um peso diferente, uma resignação mais silenciosa e cerebral. Eram eles os religiosos, os sábios, os comerciantes das pequenas vilas, cujos olhos agora fitavam o vazio com uma frieza aprendida na yeshivá ou nas duras realidades do comércio sob o Czar; a sua fé era rígida, a sua observância, um escudo que, naquele lugar, se mostrava de papel, e a sua atitude era de uma distância que Henri, o homem do meio, não sabia se vinha da profundidade da sua dor ou de um mero desprezo por aqueles que não partilhavam o seu sotaque, os seus ritos.
O campo, que deveria ser o cadinho de uma unidade forçada pelo mal absoluto, revelava-se um palco para a mais mesquinha das disputas: Asquenazes e Sefarditas, dois ramos da mesma Árvore da Vida, agora se encaravam com suspeita e desdém, trocando insultos em línguas que, embora primas, se recusavam a se irmanar. Os ladinos acusavam os outros de frieza e mercantilismo; os asquenazes retribuíam com acusações de superficialidade e exotismo desnecessário, uma cisão patética sob o olhar de um Deus que, naquele momento, parecia ter abandonado todos eles, independentemente da língua em que se Lhe dirigissem.
A brutalidade dos alemães, com sua eficiência metódica e seu ódio de engenharia, era a moldura de todo o sofrimento; eles eram a personificação da ideologia nua, o mal organizado em uniformes impecáveis e ordens precisas. O Hauptscharführer que fazia a seleção na rampa, com um gesto simples e fatal, era o ápice de uma razão pervertida, um autômato da morte que sequer parecia divertir-se com a crueldade, apenas cumpri-la com o rigor de um carpinteiro que crava o prego.
Em contraste, havia a violência crua e bestial dos guardas ucranianos e lituanos, homens cuja fúria parecia nascida de uma inveja ancestral e uma sede de sangue desinibida, que chicoteavam e espancavam com um entusiasmo selvagem, um prazer vicioso que os alemães, em sua frieza técnica, pareciam considerar de mau gosto. Eram eles que executavam a humilhação diária, que transformavam a vida no campo numa sucessão de micro-mortes, de socos e pontapés que não vinham de uma filosofia, mas sim de uma pura e simples sede de domínio.
Henri, espremido entre as facções judaicas e a dupla face da tirania, sentia a sua própria identidade desfazer-se; o seu judaísmo, antes tão sólido na sinagoga da sua aldeia, tornava-se uma coisa fragmentada e estranha, uma camisa de força rasgada que já não o protegia nem o definia. Ele via os Ladinos dançando em segredo um ritmo antigo e os Asquenazes rezando com a cabeça baixa e inabalável, e em ambos via uma resistência, mas também uma cegueira para a unidade da desgraça que os irmanava.
Ele ansiava por um sinal, um milagre invertido, uma fenda que lhe permitisse entender o sentido de tudo, ou ao menos o sentido daquela divisão absurda. A indiferença do mundo, o silêncio que Elie Wiesel tanto denunciava, era replicado ali, naquele microcosmo infernal, pelos próprios prisioneiros que se recusavam a ver a humanidade um no outro, perdidos nas suas próprias línguas e costumes.
E então, num dia cinzento, no meio da lama e dos rostos esqueléticos, chegou um novo transporte. Não eram da Grécia, nem da Polônia, mas de algum lugar mais remoto, mais ao sul. Um dos homens era diferente de todos que Henri já vira: sua pele era da cor da terra queimada, os seus traços, incrivelmente finos e delicados, e a sua barba, preta e curta, contrastava com o olhar de uma
domingo, 19 de outubro de 2025
Ouvidores da noite - conto
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