quarta-feira, 11 de março de 2026

Alguns poemas

 


CANÇÃO PRIMEIRA
Serenas donzelas
passeiam pelo rio.

Abram as janelas de sol
para que as nuvens limpem
seus quadris de peixinhos.

Mas elas vão, vão,
vão pela tarde que cai em pluma.

Dando risadinhas pequenas
e sevilhanas entre os muros grises.




O LAGARTO TRISTE
Ouviram os meninos antigos
as vozes do lagarto triste.

Triste, porque engoliu
um sino,

disse o menino mais feliz.

Triste, porque quer
ser muito rico,

disse o menino sem cadarsos.

Tris, porque quer uma
namoradinha pra brincar,

disse o menino mais feio.

Mas o lagarto pouco se importa.
Chora e os meninos antigos o ouviram.





VALSA
-reclamação em formato de valsa-
Dentro daquele rio
frio e sem alma,
meu coração descansa
apedrejado de sombras.

Meu destino é esse.
E para que estrelas tão tontas?




DE OLHOS ABERTOS
Ela dorme
de olhos abertos
com o quarto
cheio de rosas.
Em volta das duas
moças de espadas cobertas
ela dorme
de olhos aberto.
De olhos abertos
ela abre a boca de urso
para engoliar as grandes
espadas de ferro.
De olhos abertos.
De olhos abertos
ela cavalga pelo mar branco
das blumas sem jardim.

                  (de olhos abertos,
de olhos fechados,
                       silêncio, aplaudos.


 


MARIPOSA VERMELHA

Mariposa de carne

vermelha, rangendo

entre as escadas

das montanhas velhas,


um urso pelado traz em

suas mãos o azeite

de uma faca feita de

esporas de estrelas.


Mas ela, magnética,

observa apenas os

passinhos angelicais

dos pequenos duendes


que se vão, 

triste, triste, com o

manto pelas costas;

e, a mariposa vermelha,

molhada de mar,


apenas diz um adeus tímido, e fecha a porta!





OS BEIJOS DE LÍNGUA

Quem disse que

tua língua não

era faca a me cortar

nunca esperimentou


seus beijos de harpia.

Mas o amor chora hoje

e amanha volta a sorrir.


Não há cartas no correio,

e já não há mais melodia.

Quem disse que tua

língua ainda não me acarecia?





MOMENTO MAGNÍFICO

Quem me grita

se de mim mesmo

já não existo dentro desse baú

estranho a que chamamos vida...

Eu, que já amei muito

também já sofri muito

também já perdi muito.

Meu Deus, não existe outra saída

dessa vida a não ser o chegar

no frio túmulo.

Quem me grita, com essa voz

que me chama, e me chama,

e digo, espera um pouco,

quero por alguns segundos existir

para não mais ser.

Deixa que eu ouça a rosa, como  o poeta japones ancestral fez

ou mau diga o mundo

ocidentel como o poeta irlandês também o 

fez.




RECADO PARA UM HOMOSSEXUAL BANCÁRIO

Não

velha bicha

não te compares

jamais a Fernando Pessoa,

embora ele

de fato fez o  que você

nunca fez na vida.

Deixou o presente sem deixar o passado.

Primeiro:

se estranhou seu versos

depois seus versos

!se entranhou. 




HOLANDA DE OLHOS AZUIS

Não é o Tejo o rio que hoje busco,

Nem o douro que corre em minhas veias.

Estou num exílio que eu mesmo ofusco,

Onde a razão se perde em outras teias.

O céu é baixo, um teto de cinzento,

Mas nele vejo um brilho, um pensamento.


É uma Holanda de olhos azuis, fria e calma,

Que me olha sem saber o que eu contenho.

Porém, de longe, um som me toca a alma,

Um som que vem do sol que já não tenho.

É a música dele, o artífice da mágoa,

Que desenha no ar desenhos de água.


Ele canta, e o fado torna-se outra coisa,

Uma tragédia grega, um samba manso.

A palavra que em sua boca pousa

É um enigma onde eu afinal descanso.

Ele sabe a exata cor de cada dor,

E o peso que se esconde em cada amor.


Há nele uma clareza que assusta,

A geometria precisa de um olhar

Que sabe que a vida é curta e injusta,

Mas insiste, mesmo assim, em cantar.

Como se o canto fosse, em si, a cura

Para a nossa própria e vã loucura.


Eu, que sou tantos, nele encontro um só:

O construtor que ergue a sua ponte

Entre a alegria e o amargo pó,

Bebendo sempre da mesma e turva fonte.

E nesta Holanda de olhos azuis, gelada,

Sua música é a minha pátria amada.





AS BELEZAS NEGRAS

Meu olhar, que já viu tanta moldura,

Se perdeu no contorno da escultura

Dessa deusa que o sol resolveu lapidar.

Vem de Angola, traz no passo o balanço,

Um feitiço que tira o meu descanso

E um sorriso que ensina o mar a navegar.


Lá em Luanda, o café é o seu brilho,

O destino traçado em cada trilho,

Uma força que o tempo não ousou dobrar.

Mas se cruzo o oceano e chego à beira

De uma Moçambique, doce e guerreira,

Vejo a pérola negra sob o luar brilhar.


É a mesma linhagem, o mesmo porte,

Que desafia a vida e ri da sorte,

Seja no Maputo ou no cais de Luanda.

E quando a brisa sopra lá no Tejo,

Encontro em Portugal o meu desejo

Num rosto escuro onde a saudade manda.


Lisboa tem o fado em pele de âmbar,

Uma beleza que faz a gente bambear,

Mistura de mundos, de sangue e de história.

Mas é no Brasil, nessa terra imensa,

Que a beleza negra vira uma sentença:

É o samba, é o ventre, é a nossa memória.


Da Bahia ao subúrbio, o que se vê

É o porte de rainha de uma mercê,

Que carrega o Brasil no quadril e no olhar.

Seja em Luanda, Lisboa ou no meu país,

Sou o poeta rendido, eterno aprendiz,

Que só vive o bastante pra vos admirar.




A LUZ

Era uma luz de ouro sobre o muro,

um encontro de mãos, o mesmo rio.

Teu corpo no meu corpo era o seguro

abrigo contra o tempo e contra o frio.


Não havia o "outro". Havia o Ser.

Duas fontes bebendo a mesma vida,

na nudez do que é puro e quer nascer,

alma em alma, na flor já recolhida.


Amor sem nome, porque o nome é pouco,

além do mundo, do seu rastro louco.

Tudo era branco: o beijo e a verdade.


Viver é este abraço de espelhos claros,

onde os deuses, em nós, se tornam raros,

na divina e total identidade.



O CALOR

Não me fales de pátrias ou de glórias,

Nem de mapas que o tempo já cansou.

O Brasil que eu guardo nas memórias

É o corpo que o sol ali dourou.


É um abraço largo, de maré,

Que me envolve com força e com doçura;

Um beijo que não pede o que não é,

E a linha de um quadril que é só ternura.


Como é belo esse povo de olhos rasos,

Que anda nu sob o ouro do verão!

Não há culpas, nem medos, nem atrasos,

Na palma aberta dessa tua mão.


Vem, deita-te aqui, sob esta luz,

Que o mundo é pequeno e a vida é breve.

O teu amor é o brilho que conduz

O meu verso que o vento leva leve.


Brasil, és o perfume e o pecado,

A boca que sorri sem ter porquê.

Deixa que eu viva assim, apaixonado,

Pois a minha única pátria... és tu e o que se vê.


A CHAMA DA NOITE

Pétala vermelha

 Pousa na lanterna fria 

O Sonho  arde.



 


 



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