-reclamação em formato de valsa-
(de olhos abertos,de olhos fechados,
silêncio, aplaudos.
MARIPOSA VERMELHA
Mariposa de carne
vermelha, rangendo
entre as escadas
das montanhas velhas,
um urso pelado traz em
suas mãos o azeite
de uma faca feita de
esporas de estrelas.
Mas ela, magnética,
observa apenas os
passinhos angelicais
dos pequenos duendes
que se vão,
triste, triste, com o
manto pelas costas;
e, a mariposa vermelha,
molhada de mar,
apenas diz um adeus tímido, e fecha a porta!
OS BEIJOS DE LÍNGUA
Quem disse que
tua língua não
era faca a me cortar
nunca esperimentou
seus beijos de harpia.
Mas o amor chora hoje
e amanha volta a sorrir.
Não há cartas no correio,
e já não há mais melodia.
Quem disse que tua
língua ainda não me acarecia?
MOMENTO MAGNÍFICO
Quem me grita
se de mim mesmo
já não existo dentro desse baú
estranho a que chamamos vida...
Eu, que já amei muito
também já sofri muito
também já perdi muito.
Meu Deus, não existe outra saída
dessa vida a não ser o chegar
no frio túmulo.
Quem me grita, com essa voz
que me chama, e me chama,
e digo, espera um pouco,
quero por alguns segundos existir
para não mais ser.
Deixa que eu ouça a rosa, como o poeta japones ancestral fez
ou mau diga o mundo
ocidentel como o poeta irlandês também o
fez.
RECADO PARA UM HOMOSSEXUAL BANCÁRIO
Não
velha bicha
não te compares
jamais a Fernando Pessoa,
embora ele
de fato fez o que você
nunca fez na vida.
Deixou o presente sem deixar o passado.
Primeiro:
se estranhou seu versos
depois seus versos
!se entranhou.
HOLANDA DE OLHOS AZUIS
Não é o Tejo o rio que hoje busco,
Nem o douro que corre em minhas veias.
Estou num exílio que eu mesmo ofusco,
Onde a razão se perde em outras teias.
O céu é baixo, um teto de cinzento,
Mas nele vejo um brilho, um pensamento.
É uma Holanda de olhos azuis, fria e calma,
Que me olha sem saber o que eu contenho.
Porém, de longe, um som me toca a alma,
Um som que vem do sol que já não tenho.
É a música dele, o artífice da mágoa,
Que desenha no ar desenhos de água.
Ele canta, e o fado torna-se outra coisa,
Uma tragédia grega, um samba manso.
A palavra que em sua boca pousa
É um enigma onde eu afinal descanso.
Ele sabe a exata cor de cada dor,
E o peso que se esconde em cada amor.
Há nele uma clareza que assusta,
A geometria precisa de um olhar
Que sabe que a vida é curta e injusta,
Mas insiste, mesmo assim, em cantar.
Como se o canto fosse, em si, a cura
Para a nossa própria e vã loucura.
Eu, que sou tantos, nele encontro um só:
O construtor que ergue a sua ponte
Entre a alegria e o amargo pó,
Bebendo sempre da mesma e turva fonte.
E nesta Holanda de olhos azuis, gelada,
Sua música é a minha pátria amada.
AS BELEZAS NEGRAS
Meu olhar, que já viu tanta moldura,
Se perdeu no contorno da escultura
Dessa deusa que o sol resolveu lapidar.
Vem de Angola, traz no passo o balanço,
Um feitiço que tira o meu descanso
E um sorriso que ensina o mar a navegar.
Lá em Luanda, o café é o seu brilho,
O destino traçado em cada trilho,
Uma força que o tempo não ousou dobrar.
Mas se cruzo o oceano e chego à beira
De uma Moçambique, doce e guerreira,
Vejo a pérola negra sob o luar brilhar.
É a mesma linhagem, o mesmo porte,
Que desafia a vida e ri da sorte,
Seja no Maputo ou no cais de Luanda.
E quando a brisa sopra lá no Tejo,
Encontro em Portugal o meu desejo
Num rosto escuro onde a saudade manda.
Lisboa tem o fado em pele de âmbar,
Uma beleza que faz a gente bambear,
Mistura de mundos, de sangue e de história.
Mas é no Brasil, nessa terra imensa,
Que a beleza negra vira uma sentença:
É o samba, é o ventre, é a nossa memória.
Da Bahia ao subúrbio, o que se vê
É o porte de rainha de uma mercê,
Que carrega o Brasil no quadril e no olhar.
Seja em Luanda, Lisboa ou no meu país,
Sou o poeta rendido, eterno aprendiz,
Que só vive o bastante pra vos admirar.
A LUZ
Era uma luz de ouro sobre o muro,
um encontro de mãos, o mesmo rio.
Teu corpo no meu corpo era o seguro
abrigo contra o tempo e contra o frio.
Não havia o "outro". Havia o Ser.
Duas fontes bebendo a mesma vida,
na nudez do que é puro e quer nascer,
alma em alma, na flor já recolhida.
Amor sem nome, porque o nome é pouco,
além do mundo, do seu rastro louco.
Tudo era branco: o beijo e a verdade.
Viver é este abraço de espelhos claros,
onde os deuses, em nós, se tornam raros,
na divina e total identidade.
O CALOR
Não me fales de pátrias ou de glórias,
Nem de mapas que o tempo já cansou.
O Brasil que eu guardo nas memórias
É o corpo que o sol ali dourou.
É um abraço largo, de maré,
Que me envolve com força e com doçura;
Um beijo que não pede o que não é,
E a linha de um quadril que é só ternura.
Como é belo esse povo de olhos rasos,
Que anda nu sob o ouro do verão!
Não há culpas, nem medos, nem atrasos,
Na palma aberta dessa tua mão.
Vem, deita-te aqui, sob esta luz,
Que o mundo é pequeno e a vida é breve.
O teu amor é o brilho que conduz
O meu verso que o vento leva leve.
Brasil, és o perfume e o pecado,
A boca que sorri sem ter porquê.
Deixa que eu viva assim, apaixonado,
Pois a minha única pátria... és tu e o que se vê.
A CHAMA DA NOITE
Pétala vermelha
Pousa na lanterna fria
O Sonho arde.
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