O Japão moderno assemelha-se a um paciente que sofre de uma mutilação da memória, mas que, ao contrário do amnésico clínico, escolhe ativamente quais cicatrizes deseja tatear no escuro. Existe uma insistência quase religiosa em nossa identidade como a única nação martirizada pelo fogo atômico. Erguemos monumentos às cinzas de Hiroshima e Nagasaki — e devemos fazê-lo —, mas esses mesmos monumentos servem, por vezes, como biombos que ocultam os gritos vindos de Nanquim, de Manila e das mulheres de conforto escravizadas em todo o Pacífico.
Ao nos olharmos no espelho da história, preferimos a imagem da vítima pálida, purificada pelo clarão de agosto de 1945. É uma imagem que nos permite o luxo do lamento sem o peso da responsabilidade. No entanto, a verdadeira "decência" — termo que tanto busquei em minhas caminhadas pelos hospitais de sobreviventes (hibakusha) — não pode ser construída sobre o esquecimento.
A Memória Seletiva: Choramos pelos nossos mortos sob o cogumelo, mas silenciamos sobre as botas que marcharam sobre a Ásia.
A Ambiguidade: Somos um povo que vive entre a "vontade de esquecer" e o "dever de lembrar". Mas esquecer o agressor que fomos torna o nosso papel de vítima uma casca vazia, destituída de autoridade moral para pedir a paz mundial.
A Cicatriz Necessária : A insistência nesta amnésia coletiva é, na verdade, uma forma de violência contra nós mesmos. Ao negar o horror que infligimos, negamos a nossa própria humanidade integral. O Japão não será verdadeiramente uma nação de paz enquanto não reconhecer que a sombra projetada em Hiroshima foi alimentada pelas chamas que nós mesmos acendemos em solo estrangeiro. A paz não é a ausência de guerra; é a presença da verdade, por mais dolorosa que ela seja para a nossa sensibilidade nacionalista.
"Uma memória que seleciona apenas a própria dor não é memória; é propaganda do ego."
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