terça-feira, 10 de março de 2026

O Vale da Carne e o Emissário de Alecrim

 


O Vale da Carne e o Emissário de Alecrim

Ezra caminhava pela topografia acidentada daquela floresta periférica, sentindo o suor frio colar a camisa ao peito, uma sensação que lhe recordava a passividade humilhante de sua própria existência enclausurada. As árvores não eram apenas árvores; eram protuberâncias vegetais de uma obscenidade agressiva, fustes de madeira úmida que imitavam, com uma precisão biológica aterradora, a rigidez do membro masculino. Ele avançava por aquele desfiladeiro de fábulas botânicas como quem penetra nas cavidades mais escuras do próprio subconsciente.

No centro daquele silêncio vegetal, onde o ar tinha a densidade de um fluido amniótico, ele surgiu.

Não era uma aparição etérea, mas uma presença de uma fisicalidade opressiva. O Arcanjo Negro estava ali, imóvel, uma massa de músculos e sombras que parecia ter emergido das camadas mais profundas da terra. Suas coxas tinham a textura fibrosa e escura da canela, e o cheiro que emanava de seus poros — um alecrim pungente misturado ao odor metálico do sêmen — invadia as narinas de Ezra como uma ordem fisiológica.

— Use a boca — disse o Arcanjo, com uma voz que não vinha da garganta, mas das entranhas.

Ezra ajoelhou-se na terra úmida, sentindo o peso daquela carne divina sobre o rosto. Ao envolver o membro pulsante e as esferas pesadas, ele não buscava o prazer, mas uma espécie de aniquilação do eu. Era um ato de deglutição ritualística. Saborear o salgado daquela pele era como ingerir a própria história proibida da sua espécie.

Quando o desejo de Ezra transbordou em um pedido de submissão total, o Arcanjo o virou com a crueza de quem manuseia um animal de sacrifício. A penetração foi um choque de realidade pura, uma dor que rompia a casca de sua vergonha enrustida. O Arcanjo descarregou em sua boca o fluido quente e viscoso, uma substância que sabia a vida e a castigo.

Antes de se dissolver na penumbra das árvores grotescas, a criatura estendeu-lhe um pergaminho manchado de óleos corporais.

— Este é o diagrama da tua degeneração — murmurou o Arcanjo. — O mapa das regiões onde a safadeza é a única verdade. Lá, eu serei a tua ferida aberta.

Ezra deixou a floresta com os membros trêmulos, sentindo o gosto residual de alecrim e divindade na língua. Ele segurava o mapa contra o abdômen, sabendo que agora era um estrangeiro em seu próprio corpo, condenado e liberto pela cartografia de um novo e terrível mundo.

 

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