O neon do boteco piscava como um convite sujo quando
Milton avistou Simone. Ela estava encostada no poste, a saia de couro colada
nas coxas escuras, fumando com aquele jeito de quem sabe que é desejada.
"Quanto pelo copo, gata?" Milton
perguntou, a voz já rouca de antecipação.
Simone soltou uma fumaça lenta antes de responder:
"Duzão. E não é só leite não, branquelo." O sorriso dela revelou um
brinco de diamante na língua.
Ele já estava puxando a nota quando ela pegou seu
queixo com as unhas vermelhas: "Mas tem condição. Vai lamber onde eu
mandar até eu gemar igual puta no cio. Topa?"
O banheiro do bar tinha paredes sujas de histórias
parecidas. Milton ajoelhou no chão pegajoso enquanto Simone levantava a saia. O
cheiro dela era salgado, um musk de adrenalina e desejo que fez seus olhos
lacrimejarem. Quando a língua dele encontrou o buraco apertado, ela arqueou as
costas contra a pia, os seios pulando sob o top de renda.
"Assim mesmo, viado lambedor", Simone
rosnou, enfiando os dedos nos cabelos grisalhos dele.
Minutos depois, quando o jorro azedo da mija dela
escorria pela garganta de Milton, ele percebeu que nunca mais ia conseguir
beber cerveja sem ficar duro.
O neon do botequim, num espasmo de luz
barata, desenhava o contorno de Simone no poste — uma aparição de couro e ébano
que parecia reger o trânsito das almas perdidas. Milton, com o juízo já
embaçado pela última dose, aproximou-se com a voz arranhada, aquela rouquidão
de quem já perdeu todas as apostas, mas ainda insiste em dobrar o lance.
— Quanto custa o gole
dessa tua fonte, gata?
Simone, mestra no ofício
do silêncio, devolveu uma nuvem de fumaça que pairou entre os dois como uma
cortina de teatro de periferia. O sorriso veio depois, ostentando o diamante na
língua como se fosse a joia da coroa de um reino clandestino.
— Duzentos, branquelo. E
aviso logo: a água aqui é salgada e a maré não perdoa.
As unhas dela, de um
vermelho-pecado, pinçaram o queixo de Milton com a precisão de um anzol. Havia
um contrato no ar, uma cláusula escrita com batom e suor: ele teria que descer
aos porões, lamber o rastro dos passos dela, perder a pose e ganhar o estigma.
Milton, mais do que topar, rendeu-se.
O banheiro do bar era o
confessionário dos sem-fé. Entre paredes que suavam as histórias de mil outros
miltons, ele ajoelhou-se no chão que guardava o ranço de todas as esperas.
Quando Simone suspendeu a saia, o que subiu não foi apenas o cheiro de musk e
adrenalina; foi o perfume da própria perdição.
— Vai, meu poeta de
sarjeta — rosnou ela, enquanto as mãos de rainha se enterravam na prata dos
cabelos dele. — Prova do meu veneno pra ver se você vira homem.
E ali, sob o teto
descascado e o som dos copos batendo no balcão lá fora, Milton cumpriu o seu
fado. Quando o jorro quente e azedo lhe batizou a garganta, ele não sentiu
nojo, sentiu a posse. Saiu de lá com o gosto dela impregnado na alma, sabendo
que, de agora em diante, qualquer copo de cerveja seria apenas um rascunho sem
graça daquele néctar proibido que lhe deixaria o sangue em brasa para sempre.

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