O TREM É CEGO
O trem é cego.
Uma gigantesca larva de ferro,
vomitada pela terra. Sem óculos,
sem retina para a velocidade.
Quilômetros são migalhas para as
suas rodas que esmagam. O tédio do trilho
é seu único mapa, sua única crença.
O apito grita. Não é um aviso. É um
desabafo químico, um soluço de aço enferrujado sob o céu de fuligem.
Ele não vê a floresta, que se esfarrapa verde ao lado.
Não vê o camponês curvado, que é apenas um ponto marrom na tela da Revolução.
E eu? Eu, sou a guelra da rima
neste vagão de terceira classe. Onde a fumaça é a única arte respirável.
O maquinista é só um músculo obediente, mais uma peça
de zinco no motor do império. Sua vontade é um botão apertado. E o trem corre.
Corre para onde? Para uma cidade cinza, onde os edifícios são
caixões empilhados com o cimento da burocracia.
A Urbe é uma ferida aberta.
E os passageiros? São silêncios empacotados, com almas de papel de jornal e sonhos amassados sob o peso da passagem.
O trem vomita luz na noite sem estrelas. É a lanterna da História, que ilumina apenas o que já foi esmagado.
Um olho vazio maior que todas as fábricas de Moscou. Um futuro sem fisionomia no horizonte de carvão.
Rejeito a poesia do canto-de-grilo, a rima de chá-com-biscoitos. Quero o ferro quente do verso, a colisão frontal da palavra.
O trem sabe que é cego. É a sua tragédia metálica.
Nasceu para o destino da linha reta, sem direito à curva da introspecção.
E se ele parasse? Se o freio fosse um poema
gritado que paralisasse as engrenagens? O caos seria o nosso novo ritmo!
Camaradas! Não sejamos como o comboio!
O trem é cego, mas nós, não! O futuro exige
retinas de fogo, visão de raios-X sobre o mapa.
Que a máquina morra, mas que a velocidade da ideia
viva! O trem é cego, mas o Poeta tem olhos
em cada sílaba.
Proletários, olhai!
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