terça-feira, 4 de novembro de 2025

O TREM É CEGO

 

O TREM É CEGO

O trem é cego.

 Uma gigantesca larva de ferro, 

vomitada pela terra. Sem óculos,

 sem retina para a velocidade.

Quilômetros são migalhas para as

 suas rodas que esmagam. O tédio do trilho 

é seu único mapa, sua única crença.

O apito grita. Não é um aviso. É um 

desabafo químico, um soluço de aço enferrujado sob o céu de fuligem.

Ele não vê a floresta, que se esfarrapa verde ao lado. 

Não vê o camponês curvado, que é apenas um ponto marrom na tela da Revolução.


E eu? Eu, sou a guelra da rima 

neste vagão de terceira classe. Onde a fumaça é a única arte respirável.

O maquinista é só um músculo obediente, mais uma peça

 de zinco no motor do império. Sua vontade é um botão apertado. E o trem corre.

Corre para onde? Para uma cidade cinza, onde os edifícios são

 caixões empilhados com o cimento da burocracia. 

A Urbe é uma ferida aberta.

E os passageiros? São silêncios empacotados, com almas de papel de jornal e sonhos amassados sob o peso da passagem.

O trem vomita luz na noite sem estrelas. É a lanterna da História, que ilumina apenas o que já foi esmagado.

Um olho vazio maior que todas as fábricas de Moscou. Um futuro sem fisionomia no horizonte de carvão.

Rejeito a poesia do canto-de-grilo, a rima de chá-com-biscoitos. Quero o ferro quente do verso, a colisão frontal da palavra.

O trem sabe que é cego. É a sua tragédia metálica.

 Nasceu para o destino da linha reta, sem direito à curva da introspecção.

E se ele parasse? Se o freio fosse um poema

gritado que paralisasse as engrenagens? O caos seria o nosso novo ritmo!

Camaradas! Não sejamos como o comboio! 

O trem é cego, mas nós, não! O futuro exige 

retinas de fogo, visão de raios-X sobre o mapa.

Que a máquina morra, mas que a velocidade da ideia 

viva! O trem é cego, mas o Poeta tem olhos

 em cada sílaba. 

Proletários, olhai!

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