segunda-feira, 6 de abril de 2026

Canto do Outono no Hudson


Eu não venho cantar a vossa prata, cavalheiros do norte,

nem o relâmpago de fósforo que vossas máquinas cospem

sobre as capitais da dor.

Eu venho falar da ferrugem, a mansa ferrugem que come,

com dentes de água e tempo,

o coração do vosso império de aço.


Vi as torres de Manhattan,

orgulhosas como deuses de vidro e prepotência,

esquecerem que seus pés de cimento

pisam a argila sagrada do índio,

o lodo onde o Amazonas e o Mississippi

ainda sonham com a liberdade dos rios patriarcas.


Mas o outono chega, Iankes, o outono sempre chega.

Não o outono das folhas vermelhas que cantais,

mas o outono geológico, o espirro do vulcão,

a digestão lenta da terra que não perdoa.


Vosso dólar é uma folha seca que o vento da história arrasta.

Vossas frotas de ferro são cascas de nozes

num oceano que já devorou estátuas mais altas

e capitães mais ferozes que os vossos advogados.


Olhai para o sul.

Da Macchu Picchu de pedra eterna à pampa de chuva,

nós esperamos. Nós somos a bacia do barro,

o milho que teima em crescer entre as ruínas,

o sangue que sobreviveu à Standard Oil e à United Fruit.


Vós construístes sobre o roubo e a vertigem,

e vossa queda será como o estrondo de um pinheiro gigante:

assustadora para os pássaros da vossa gaiola,

mas necessária para que o sol volte a tocar o chão da selva.


A ruína não vem de fora, cavalheiros.

Ela cresce nas fissuras de vossa própria arrogância,

no silêncio dos operários que vossas mãos exploraram,

na solidão de vossas cidades sem alma.


O império americano se desfaz,

não sob bombas, mas sob o peso de sua própria sombra.

E nós, os povos da argila, os Latinos da esperança e da fome,

nós ficaremos, cantando com o rio e o vento,

vendo a ferrugem terminar seu trabalho de justiça elementar.

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