Eu não venho cantar a vossa prata, cavalheiros do norte,
nem o relâmpago de fósforo que vossas máquinas cospem
sobre as capitais da dor.
Eu venho falar da ferrugem, a mansa ferrugem que come,
com dentes de água e tempo,
o coração do vosso império de aço.
Vi as torres de Manhattan,
orgulhosas como deuses de vidro e prepotência,
esquecerem que seus pés de cimento
pisam a argila sagrada do índio,
o lodo onde o Amazonas e o Mississippi
ainda sonham com a liberdade dos rios patriarcas.
Mas o outono chega, Iankes, o outono sempre chega.
Não o outono das folhas vermelhas que cantais,
mas o outono geológico, o espirro do vulcão,
a digestão lenta da terra que não perdoa.
Vosso dólar é uma folha seca que o vento da história arrasta.
Vossas frotas de ferro são cascas de nozes
num oceano que já devorou estátuas mais altas
e capitães mais ferozes que os vossos advogados.
Olhai para o sul.
Da Macchu Picchu de pedra eterna à pampa de chuva,
nós esperamos. Nós somos a bacia do barro,
o milho que teima em crescer entre as ruínas,
o sangue que sobreviveu à Standard Oil e à United Fruit.
Vós construístes sobre o roubo e a vertigem,
e vossa queda será como o estrondo de um pinheiro gigante:
assustadora para os pássaros da vossa gaiola,
mas necessária para que o sol volte a tocar o chão da selva.
A ruína não vem de fora, cavalheiros.
Ela cresce nas fissuras de vossa própria arrogância,
no silêncio dos operários que vossas mãos exploraram,
na solidão de vossas cidades sem alma.
O império americano se desfaz,
não sob bombas, mas sob o peso de sua própria sombra.
E nós, os povos da argila, os Latinos da esperança e da fome,
nós ficaremos, cantando com o rio e o vento,
vendo a ferrugem terminar seu trabalho de justiça elementar.
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