segunda-feira, 6 de abril de 2026
Os sonhos
O Cálculo do Fim
O átomo é um segredo que não aceita o silêncio.
Vimos a luz que não nasce do sol,
aquela que desfolha o ferro como se fosse seda,
e agora o mundo — este vidro soprado pelo acaso —
treme sob o peso de nossa própria curiosidade.
Não são as estrelas que falham,
é o vácuo entre a nossa mão e o freio.
Fragmentamos o núcleo para unir o medo,
e o que era sólido se dissolve em probabilidade:
A Matéria: Uma promessa traída pela fissão.
O Tempo: Um cronômetro cujo zero já esquecemos.
A Ética: Um rastro de fumaça num deserto de areia vitrificada.
A fórmula era bela no giz branco da lousa,
limpa como um verso de Dante ou uma linha de Gita.
Mas a simetria se rompe no impacto.
O mundo não é mais um palco, é um laboratório
onde os observadores queimam junto com a prova.
O céu tornou-se um sudário de pó fino,
e a fragilidade não está no impacto, mas na espera.
Somos as crianças que brincam com o raio,
contando os segundos entre o clarão e o trovão,
sem saber que, nesta escala de desolação,
o som nunca alcançará quem já se tornou luz.
"Agora eu me tornei a Morte, a destruidora de mundos."
Mas a morte é um evento. O que criamos é uma condição.
O Arabesco no Barro
Do Oriente veio o sopro e a memória,
Nas malas, o cedro e o sol de outrora,
Cruzaram o mar, mudando a própria história,
Pousando os pés onde a canoa mora.
O mascate, de voz firme e sedutora,
Abriu o mundo em fardos de vitória,
Fez da selva e da rua sua aurora,
Tecendo o tempo em fios de glória.
O quibe e o azeite à mesa brasileira,
Misturam-se ao cheiro da mangueira,
Num abraço de rio e de deserto.
O árabe aqui plantou sua raiz,
Fez-se alma de um povo mais feliz,
Com o coração no Longe e o braço no Perto.
Canto do Outono no Hudson
Eu não venho cantar a vossa prata, cavalheiros do norte,
nem o relâmpago de fósforo que vossas máquinas cospem
sobre as capitais da dor.
Eu venho falar da ferrugem, a mansa ferrugem que come,
com dentes de água e tempo,
o coração do vosso império de aço.
Vi as torres de Manhattan,
orgulhosas como deuses de vidro e prepotência,
esquecerem que seus pés de cimento
pisam a argila sagrada do índio,
o lodo onde o Amazonas e o Mississippi
ainda sonham com a liberdade dos rios patriarcas.
Mas o outono chega, Iankes, o outono sempre chega.
Não o outono das folhas vermelhas que cantais,
mas o outono geológico, o espirro do vulcão,
a digestão lenta da terra que não perdoa.
Vosso dólar é uma folha seca que o vento da história arrasta.
Vossas frotas de ferro são cascas de nozes
num oceano que já devorou estátuas mais altas
e capitães mais ferozes que os vossos advogados.
Olhai para o sul.
Da Macchu Picchu de pedra eterna à pampa de chuva,
nós esperamos. Nós somos a bacia do barro,
o milho que teima em crescer entre as ruínas,
o sangue que sobreviveu à Standard Oil e à United Fruit.
Vós construístes sobre o roubo e a vertigem,
e vossa queda será como o estrondo de um pinheiro gigante:
assustadora para os pássaros da vossa gaiola,
mas necessária para que o sol volte a tocar o chão da selva.
A ruína não vem de fora, cavalheiros.
Ela cresce nas fissuras de vossa própria arrogância,
no silêncio dos operários que vossas mãos exploraram,
na solidão de vossas cidades sem alma.
O império americano se desfaz,
não sob bombas, mas sob o peso de sua própria sombra.
E nós, os povos da argila, os Latinos da esperança e da fome,
nós ficaremos, cantando com o rio e o vento,
vendo a ferrugem terminar seu trabalho de justiça elementar.
Der nackte Transvestit: Schönheit der Straße
A travesti nua: beleza da rua
No asfalto, o corpo é um poliedro de luz,
ângulo de carne que corta a noite espessa
e converte o ermo em centro de gravidade.
A nudez não é despojo, é arquitetura:
coluna viva sustentando o céu de chumbo,
traço de seda sobre a pedra bruta do mundo.
Cidade e pele se fundem em simetria exata;
ali, onde a margem se faz absoluto centro,
a beleza é o verbo que explode de dentro.
Der nackte Transvestit: Schönheit der Straße
Auf dem Asphalt ist der Körper ein Polyeder aus Licht,
ein Fleischwinkel, der die dichte Nacht durchschneidet
und das Öde in einen Anziehungspunkt verwandelt.
Nacktheit ist keine Plünderung, sie ist Architektur:
eine lebendige Säule, die den bleiernen Himmel trägt,
ein Hauch von Seide auf dem rauen Stein der Welt.
Stadt und Haut verschmelzen in exakter Symmetrie;
dort, wo der Rand zum absoluten Zentrum wird,
ist Schönheit das Verb, das von innen heraus explodiert.