terça-feira, 4 de novembro de 2025

A Cidade Que Trepa Como uma Videira Fértil

 

I.

Jerusalém, ó nome que cintila, Como um estilhaço de gelo no limiar. Tuas pedras não são pó, mas sílabas vivas, E cada muro estremece ao troar da história. Quantas vezes te despiram do teu telhado, Deixando a alma nua sob um sol sem descanso? O azeite derramado, o riso desfeito, Onde o lamento é a única água que não seca. A ruína não é um traço, mas um destino Que se repete no eco de cada bomba. As oliveiras, curvadas como viúvas, Testemunham o tempo que quebrou o jarro.

II.

Não é o sangue que mancha, é a cegueira atroz, Essa poeira que se agarra ao olho do justo. O Povo de Lá, o Povo de Cá – que ferro frio Separa o mesmo solo, o mesmo abraço amado? O Ioguev, o Jabel, a brisa é a mesma, O aroma de sálvia não escolhe a fronte. A história – esse cavalo pálido e cansado – Trocou os nomes, mas não a sede de pertencer. As crianças brincam onde ontem houve um buraco, E o mesmo medo afina o seu canto de grilo. Ambos bebem da mesma fonte subterrânea, Ambos carregam a mesma dor de exílio na própria casa.

III.

Que a paz não seja um acordo, um papel cinzento, Mas sim a chuva que chega após o verão árido. Palestinos, ó, irmãos de areia e de sonho, Judeus, ó, irmãos de ruga e de lembrança antiga. Não há futuro onde a lágrima é divisível; A terra de Israel é vasta como um coração que bate forte, Mas estreita, se a âncora do ódio ainda a prender. Que se quebre a vidraça turva da inimizade, Que se escutem os sinos, os muezzin e o shofar, Num concerto que não seja mais de armas, mas de vida. Que o destino, esse moinho, não triture mais a esperança, Mas moa o trigo para um pão comum. A união será a mais bela revolução, Onde a antiga dor se tornará em pura forma.

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