domingo, 1 de junho de 2025

Os Meus Dois Avôs

 

Os Meus Dois Avôs

Nasci judeu por herança, nunca por escolha. Como quase tudo que determina a vida de um homem.

Meu avô paterno era um judeu alemão — daqueles que falavam o hebraico como se fosse latim e olhavam para o mundo com uma dignidade ferida, mas intacta. Era seco, metódico, vestia-se como um funcionário público da Prússia mesmo nos trópicos, e guardava na alma o que parecia ser uma coleção de cicatrizes bem organizadas. Quando eu era criança, ele costumava me ensinar palavras em iídiche que nunca me explicava completamente. Dizia: “Entender demais é o primeiro passo para se perder.”

Minha avó materna, por outro lado, era o oposto em tudo. Viera do Iêmen com a pele marcada pelo sol e os olhos que brilhavam como se a fé morasse ali dentro, rindo das tragédias. Falava ladino, mas misturado com árabe e hebraico das orações, uma salada sonora que fazia minha mãe rir e meu avô franzir a testa em reprovação silenciosa. Ela dizia que os judeus da Europa eram tristes porque acreditavam em Deus como se Ele fosse um juiz; os do deserto, como ela, falavam com Deus como se Ele fosse um parente.

Na mesa de sábado, quando ainda se reuniam, meu avô e minha avó trocavam olhares que pareciam traduzir toda a história do povo judeu: a desconfiança mútua, a fé comum, e a impossibilidade de verdadeiramente se entenderem. Cada um achava o judaísmo do outro meio errado, meio folclórico. E eu, sentado entre os dois, ouvia as bênçãos ditas em tons diferentes, como se o mesmo Deus usasse máscaras distintas conforme o lado da mesa.

Com o tempo, percebi que a comunidade judaica — essa abstração que muitos de fora tratam como monólito — é na verdade um mosaico de vozes que mal se escutam. Os judeus da Europa Central nunca entenderam os do Magrebe, e os do Leste europeu acham os da Etiópia um acidente genealógico. Conheci judeus russos que não sabiam o que era sepharad, judeus cariocas que achavam que todo judeu era branco e falava francês, e judeus ortodoxos que olhavam com pena para os reformistas como se fossem filhos bastardos de um pacto antigo.

Meu pai — filho do alemão — tornara-se ateu com disciplina germânica. Minha mãe — filha da iemenita — acreditava em tudo: anjos, maldições, olhos gordos, e na possibilidade de que a alma voltasse como vento. Cresci entre esses dois extremos, e nunca soube a quem rezar, ou se devia rezar. Mas entendi, com o tempo, que ser judeu é isso: não uma certeza, mas uma tensão constante entre pertença e exílio, tradição e ruptura, memória e invenção.

Hoje, quando vou à sinagoga — raramente — vejo rostos tão diversos que seria preciso um novo livro do Gênesis para explicar. E ainda assim, o velho rabino repete a mesma prece, em hebraico antigo, como se todos ali compartilhassem não só a fé, mas a mesma infância, a mesma guerra, a mesma mãe. É um teatro necessário, penso. Porque, às vezes, só o rito impede que a identidade se dissolva no esquecimento.

Meu avô morreu sem aceitar a fé da esposa. Minha avó morreu dizendo que ele agora, no outro mundo, deve ter aprendido a dançar. E eu, no meio, continuo escrevendo. Não para entender, mas para não esquecer. Porque ser judeu talvez seja isso: carregar uma história que nunca se encaixa direito, e ainda assim continuar andando — como um povo que escreve no deserto com a própria sombra.

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