domingo, 1 de junho de 2025

Noite com Corpo Duplo


Na casa onde moro desde que minha mãe morreu, o silêncio tem cheiro de coisa molhada esquecida na sombra. Nunca me casei. Trabalho meio turno na biblioteca municipal de Ribeirão das Pedras, um lugar onde os livros dormem de verdade e os jovens entram mais por tédio do que por curiosidade. Costumo dizer que a cidade inteira é uma frase suspensa antes da vírgula: todos esperando que algo aconteça, mas nada acontece. Só o tempo.


Foi numa dessas noites quentes, em que a energia parece queimada por dentro, que a conheci. Seu nome de batismo era obscuro, mas ela se apresentava como Verônica — e o nome lhe caía como se tivesse nascido dele. Encontrei-a na praça velha, sentada no banco de cimento onde antigamente os velhos jogavam damas. Ela estava fumando, um cigarro fino demais para seus dedos longos e calosos. Os olhos — delineados como se fossem um teatro — me encararam com uma gentileza que não exigia resposta. E mesmo assim, respondi. Sentei-me ao lado, como quem entra num sonho sem querer acordar.


Não lembro o que falamos. Lembro do ritmo, da sensação de que as palavras se desmanchavam antes de atingir qualquer conclusão. Verônica falava como quem esculpe algo invisível no ar — e tudo o que dizia era sobre o corpo, mas de um jeito que incluía a alma. Falou das dores dos hormônios, dos espelhos, da infância cortada como roupa que não serve, e das noites como aquela, em que ninguém pergunta o que você é — apenas te olha como se já soubesse.


Fomos até minha casa. Não por desejo imediato, mas por uma espécie de rendição. Era como se ela me puxasse não com os gestos, mas com uma ausência de resistência — e eu, tão acostumado a resistir, achei aquilo divino. O quarto estava como sempre: ventilador quebrado, lençóis cansados, livros empilhados em vez de cabeceira. Ela olhou ao redor como se estivesse visitando uma parte minha que eu nunca tinha coragem de mostrar. E então, sem se despir ainda, deitou na cama. Disse apenas: “Pode me olhar.”


E eu olhei.


Não com os olhos de um homem tentando decifrar um corpo. Olhei como quem vê um milagre doméstico: um vaso rachado que ainda segura a água, uma planta que insiste em nascer do concreto. O corpo dela era duplo — isso eu pensei — como se carregasse, ao mesmo tempo, a mulher inteira e o homem que se recusou a morrer. E isso não era confuso. Era comovente.


Quando fizemos amor, não foi com voracidade. Foi com uma lentidão que parecia desafiar o tempo. Cada toque era uma tradução: minha mão em seu peito, a curva que ainda era promessa, a espessura do corpo que não mentia. Era como escrever um texto com os dedos. Um texto que não pedia ponto final.


Depois, deitamos lado a lado. Ela fumou outro cigarro. Eu quis perguntar se ela se sentia feliz, mas me calei. Em vez disso, ela disse: “Você tem uma tristeza bonita.” Eu quis rir, mas engoli o som. Nunca ninguém tinha falado comigo assim — sem querer me consertar.


No dia seguinte, ela partiu antes que o sol invadisse o quarto. Deixou um bilhete escrito com letra firme: “A vida é esse intervalo entre uma vergonha e outra. Obrigada por ter me olhado sem medo.”


Desde então, não a vi mais. Às vezes passo pela praça e finjo que não procuro. Outras vezes, acordo no meio da noite com a impressão de que alguém ainda respira do meu lado. Na biblioteca, comecei a escrever — não livros, mas fragmentos. Pequenos pedaços de uma história que nunca se encaixa, mas insiste em ser lembrada.


Verônica, como as coisas verdadeiras, não precisava durar para ser real. Ela me deixou algo que os santos, os médicos e os poetas nunca conseguiram: a certeza de que o corpo não é prisão, é tradução.


E toda noite, quando o silêncio ameaça me devorar, repito baixinho o nome dela. Como se fosse oração.

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