Entre o Mar Morto e o Pão de Queijo
Nasci judeu, mas isso não foi culpa minha. A culpa veio depois — como convém.
Minha mãe dizia: “Você é judeu, sim, mas brasileiro também, não esquece.” Como se fossem dois times jogando bola dentro do meu corpo, e eu sempre em impedimento espiritual. Meu pai, um judeu meio místico, meio contador da Receita Federal, dizia que ser judeu era acordar todo dia com vontade de comer pão com manteiga e lembrar que tinha colesterol alto. “Ser judeu é viver com consciência, mesmo quando seria melhor ignorar.”
Estudei em colégio católico porque era o mais perto de casa. Rezei pra Nossa Senhora mais vezes do que pro Adonai, e descobri que minha alma tem sotaque mineiro. Nunca deixei de ser judeu por isso. Ao contrário: me tornei um judeu mais criativo, mais poroso, mais cheio de vírgulas.
Na Páscoa cristã, comi bacalhau com a avó do meu amigo. Na Pessach, comi matzá em silêncio enquanto todos liam a Hagadá em hebraico como se estivessem numa maratona. E entre um e outro, descobri que a digestão é um lugar teológico. Só Deus explica como sobrevivi àquela farofa de farinha seca e fé ancestral.
Sempre me senti um pouco infiltrado no mundo dos gentios. Como um personagem do Woody Allen perdido num episódio de “A Grande Família”. Eu queria ser invisível, mas acabava explicando o que era “Kasher” no churrasco do colégio. “Pode cerveja?” perguntavam. “Se não for feita com sangue de porco, acho que sim.”
Mas fui feliz. Aliás, sou. Felicidade para um judeu é um conceito estranho, como férias prolongadas ou paz no Oriente Médio. Mas sim, encontrei uma alegria torta, irônica, que escorrega como quiabo na boca: esse prazer de ser o estranho simpático, o diferente que conta piadas, o que sabe fazer hummus e corrigir a pronúncia de Kafka.
Acho que ser judeu no meio de gentios é como ser uma nota dissonante numa música bonita: você não é o centro, mas também sem você a coisa toda não teria graça.
E no fim, quando me perguntam “Você é judeu mesmo?”, respondo com o sorriso mais dividido que existe: “Sou, uai. E com orgulho.”
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