Acordei às 2h47 da manhã. Não porque queria. Porque não aguentava mais dormir. Há sonhos que duram o suficiente para nos lembrar que a realidade é ainda pior. Sentei diante do computador. Uma tela vazia, um campo de batalha onde os mortos são apenas palavras que não escrevi. Comecei a digitar. Poemas. Fragmentos. Um parágrafo sobre uma mulher que me deixou sem nunca ter me conhecido. Isso acontece mais do que se pensa.
Escrever é um gesto patético. Um homem solitário batendo teclas no escuro, esperando que a combinação exata entre dor, ritmo e memória produza algo que se salve do esquecimento. Quase nunca acontece. Mas continuo. Como os cães voltam para a mesma poça de água suja. Como os bêbados voltam para o bar, mesmo depois de jurarem que era a última vez.
Hoje escrevi uma linha boa. Uma só. "A vida é uma desgraça, mas ainda assim escorre como um fio de mel negro pela borda da pia." Não sei o que isso significa. Mas soou verdadeiro. E isso basta. Quem precisa de coerência quando se está cercado de silêncio e luz artificial?
Meus amigos estão mortos. Ou pior: vivos e felizes. Casaram, tiveram filhos, foram promovidos. Eu sigo aqui. Escrevendo como se alguém fosse ler. Como se o ato de escrever fosse mais nobre do que lavar louça. Spoiler: não é. Mas, de algum modo, também é.
Lembro de uma frase de Artaud. Algo sobre a impossibilidade de viver e a necessidade de gritar. Acho que era isso. Mas também pode ter sido um delírio meu. Não importa. O importante é que estou aqui, escrevendo, esperando que algo me interrompa. A morte, talvez. Uma notificação. Um telefonema com uma notícia ruim (as únicas que chegam).
Em outro tempo, teria me embriagado. Em outro tempo, teria fugido para o México ou para Valparaíso, com uma mochila, três livros e nenhuma explicação. Agora fujo para dentro dos parágrafos. Um quarto fechado, um café frio e a ideia reconfortante de que não preciso ser feliz. Preciso apenas continuar escrevendo. Até não restar mais nada.
A vida é uma desgraça, sim. Mas é minha. E nela, inventei um nome. Um corpo. Um estilo. Uma derrota com ritmo. Isso é tudo. Isso é nada. Isso é literatura.
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