Na rua Augusta ele a viu encostada num poste, fumando um cigarro barato. Tinha olhos pintados demais e uma saia vermelha que parecia ter sido comprada num brechó de filmes pornográficos dos anos 70.
— Você é de menor? — ele perguntou.
Ela riu, jogando a cabeça pra trás.
— Tenho vinte.
Ele ergueu a sobrancelha.
— Não acredito.
— Porque?
— Parece mais nova.
— Obrigado, então.
Um silêncio. Carros passavam com pressa. Um motoboy quase atropelou um poodle.
— E você gosta de boneca? — ela disse, soprando a fumaça direto nos olhos dele.
Ele hesitou. Pensou em responder com outra pergunta. Mas disse:
— Desde pequeno.
Ela deu um passo à frente, os saltos clicando na calçada.
— Nossa, que delícia.
Ele olhou pros lados. A cidade toda era um motel sem porta.
— Você tem pauzão? — ela disse, rindo baixo.
— Vinte e três centímetros — ele respondeu, como se falasse do comprimento de uma faca.
— Então qual é o seu pedido?
Ele olhou pra boca dela. Pensou na solidão do apartamento, no cheiro de mofo do colchão, nos sussurros que inventava quando o silêncio ficava grande demais.
— Pode gozar na minha boca — ela disse, como quem oferece uma bala.
— Quanto?
— Cem. O programa.
Ele passou a mão no bolso. Tinha oitenta.
— Aceita Pix?
Ela riu.
— Só se vier com beijo.
Foram andando em direção a um hotel de neon azul. Ela falava do calor. Ele só pensava no som dos saltos.
Pareciam tiros.

Nenhum comentário:
Postar um comentário