segunda-feira, 23 de junho de 2025

O Pedido


Na rua Augusta ele a viu encostada num poste, fumando um cigarro barato. Tinha olhos pintados demais e uma saia vermelha que parecia ter sido comprada num brechó de filmes pornográficos dos anos 70.

— Você é de menor? — ele perguntou.

Ela riu, jogando a cabeça pra trás.

— Tenho vinte.

Ele ergueu a sobrancelha.

— Não acredito.

— Porque?

— Parece mais nova.

— Obrigado, então.

Um silêncio. Carros passavam com pressa. Um motoboy quase atropelou um poodle.

— E você gosta de boneca? — ela disse, soprando a fumaça direto nos olhos dele.

Ele hesitou. Pensou em responder com outra pergunta. Mas disse:

— Desde pequeno.

Ela deu um passo à frente, os saltos clicando na calçada.

— Nossa, que delícia.

Ele olhou pros lados. A cidade toda era um motel sem porta.

— Você tem pauzão? — ela disse, rindo baixo.

— Vinte e três centímetros — ele respondeu, como se falasse do comprimento de uma faca.

— Então qual é o seu pedido?

Ele olhou pra boca dela. Pensou na solidão do apartamento, no cheiro de mofo do colchão, nos sussurros que inventava quando o silêncio ficava grande demais.

— Pode gozar na minha boca — ela disse, como quem oferece uma bala.

— Quanto?

— Cem. O programa.

Ele passou a mão no bolso. Tinha oitenta.

— Aceita Pix?

Ela riu.

— Só se vier com beijo.

Foram andando em direção a um hotel de neon azul. Ela falava do calor. Ele só pensava no som dos saltos.

Pareciam tiros.

título: o busto


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