Ela —
com olhos mais profundos que maré cinza em
baía de mangue,
cabelos armados em coroa de sal e
chama,
usa saltos que desafiam
a geometria —
e um vestido amarelo girassol,
sem pedir desculpas.
Ao seu lado,
num aquário ovalado
de vidro barato,
um peixe —
não um peixe qualquer —
mas um acará-disco,
cintilante como vitral
numa catedral submersa.
Suas escamas:
azuis que seriam
considerados impróprios
por tabelas Pantone.
Nadando em voltas calmas,
como quem conhece
o prazer da excentricidade.
Ela acaricia o vidro
com dedos vermelhos,
unhas longas como pequenas adagas —
não para ferir,
mas para cortar o costume
em tiras.
A rua olha.
Com olhos que julgariam
se não estivessem tão ocupados
com o espanto.
Ela ri.
Um riso de aço inoxidável
que reflete a luz
e perfura o silêncio
melhor que discursos.
Sua beleza:
algo que não se pode vender —
como a dança de um pássaro noturno
ou a lógica de uma flor carnívora.
Ela —
é arquitetura imprecisa.
É mapa sem legenda.
É beleza sem permissão.
E o peixe, seu cúmplice,
nada em círculos perfeitos,
como se dissesse:
"o mundo é redondo,
mas ela é o centro."
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