1
Leda era bela, loira encantada,
Com olhos de sol e riso de flor,
Por onde passava, era admirada,
Todos a queriam por puro amor.
2
Na escola, era a mais desejada,
Rainha dos sonhos, musa ideal,
Mas escondia, de forma calada,
Um segredo estranho, quase fatal.
3
Pois quando nervosa, triste ou com medo,
Ou mesmo feliz demais, sem razão,
Leda vomitava — e com grande enredo —
Lesmas viscosas, sem compaixão.
4
Eram lesmas vivas, gosmentas, molhadas,
Que saíam em fila de dentro dela,
Eca! Asco! Nojo em caras pasmadas,
Ninguém mais queria ficar com Leda, bela.
5
No começo achavam que era uma lenda,
Um boato bobo, sem fundamento.
Mas bastou um surto na aula de prenda
Pra confirmarem o acontecimento.
6
Num beijo furtivo, dado no canto,
O menino caiu de amor por ela,
Mas logo ficou pálido, em pranto,
Ao ver a gosma escorrendo da donzela.
7
Leda chorava com dor e vergonha,
"Eu só queria amar como os demais!"
Mas dentro de si, vivia a estranha
Maldição das lesmas, ritos ancestrais.
8
Os pais tentaram benzedeira e reza,
Médico, exorcismo e simpatia,
Mas nada curava essa estranha tristeza
De pôr lesmas pra fora a cada agonia.
9
Com o tempo, Leda se fez solitária,
Cansou dos olhares e do escárnio cruel.
Fez das lesmas sua companhia diária,
Criou um jardim e ali virou réu.
10
Mas quem a julgava, com dedo apontado,
Nunca entendeu sua dor verdadeira.
Pois Leda era um anjo amaldiçoado
Que só queria amor — de maneira inteira.

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