terça-feira, 17 de junho de 2025

Espelho de Papel


Estava sozinho no apartamento.

O silêncio não era total — nunca é. O motor da geladeira tossia no fundo, o relógio digital piscava um vermelho morto. Terminara de ler um livro. Título estrangeiro, autor morto. Um desses livros que falam de nada, com frases bonitas e mulheres sem nome. Gostava disso. Gostava de sentir que o mundo era uma merda com estilo.

Fechou o livro. Ficou olhando a capa. Sentiu um incômodo. Como uma coceira no fundo da cabeça.

Lembrou que já tinha escrito um conto parecido. Anos atrás. Talvez dez, talvez quinze. Um homem sozinho num apartamento. Lendo. Ao fim da leitura, se matava.
Sem drama. Sem bilhete. Sem trilha sonora.

Ele escrevera isso. E depois rasgara o papel.

Não por censura. Não era covarde. Nem sentimental. Rasgou porque o texto o assustou. Não pelo final — mas porque era bom demais. Perigoso demais. Soava como verdade.

Levantou-se. Foi até a gaveta. Revistou papéis antigos, rabiscos, contas. Achou um pedaço. Uma frase torta escrita à caneta: "Não se morre por falta de amor, morre-se por excesso de lucidez."

Riu. Ou tentou. O som não saiu.

Voltou pra cadeira. Olhou a janela. Rua escura. Nenhum movimento.
Sentiu sede. Pegou um copo. Água morna. Voltou.

Abriu o livro de novo. Não para reler. Só para confirmar que tinha terminado. Havia algo inconcluso nele — não no livro, nele mesmo.

Pensou em escrever. Mas não tinha mais máquina de escrever. Nem vontade.

A noite se adensava. O silêncio se aproximava do absoluto. O motor da geladeira parou.

Lembrou-se de novo do conto.
O homem lia, pensava e, depois...
pulava.
Ou atirava na cabeça.
Ou dormia para nunca mais acordar.

Mas esse homem era de papel.
E ele ainda estava ali.

Ou pensava que estava.

No chão, junto aos cacos da gaveta,
uma folha amassada:
o conto ainda existia.

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