Chamava-se Eliezer, mas ninguém o chamava, talvez porque fosse mais velho que as perguntas, ou porque sua túnica cheirava a vinagre e suor, ou porque seu modo de olhar os eventos parecia sempre dizer, isso já aconteceu antes, e vai acontecer de novo, e agora era meio-dia e ele estava lá, encostado na sombra breve de uma oliveira estéril, olhando o tal galileu pendurado na madeira, um judeu como ele, mais novo, mais falante, mais popular, talvez mais ingênuo, pois acreditava em coisas como amor ao próximo e Reino de Deus, como se Roma fosse feita de parábolas e não de lanças.
Olhou o homem crucificado com os olhos pequenos e secos de quem já vira apedrejamentos, degolas, e até dois homens brigando por uma moeda de cobre em pleno sábado, e disse consigo mesmo, ou talvez com Deus, que naquele momento estava ocupado em outro universo, lá está ele, pobre coitado, achando que vai mudar o mundo com sermão na montanha, quem já viu isso, montanha é pra cabra e não pra ideia, e enquanto pensava, os romanos riam, como ri quem não precisa entender, porque quem tem o poder não precisa saber por quê o outro morre, basta que morra.
E os judeus também estavam lá, alguns rezando, outros cochichando, outros esperando que o sábado chegasse logo para irem embora, pois havia peixes a comprar e filhos a alimentar, e ninguém sabia exatamente o que estava acontecendo, uns diziam que era o Messias, outros que era só mais um falso profeta, e Eliezer olhava e dizia, talvez sejam os dois, talvez ser Messias seja justamente isso, morrer pendurado entre dois ladrões e ainda assim achar que valeu a pena.
Quando a terra tremeu, e o céu escureceu, e o soldado romano deu um passo atrás como quem vê a própria mãe morta, Eliezer pensou que finalmente alguma coisa estava acontecendo, mas não era medo, era tédio, pois até os milagres repetem-se com o tempo, e ele já não acreditava nem no chão que pisava, quanto mais no céu que se rasgava.
Naquela noite, sonhou com um mundo em paz, um mundo onde ninguém mais matava em nome de Deus, nem julgava pelo nome, nem cuspia no rosto de um condenado como quem limpa os próprios pecados, sonhou com uma mesa comprida, onde romanos, gregos, judeus e samaritanos comiam pão e tâmaras e discutiam filosofia sem levantar a voz, e havia um silêncio tão grande que até os anjos se calaram para ouvir.
Acordou com febre, os olhos cheios de areia e o peito vazio como se alguém tivesse levado embora sua última certeza, e soube que ia morrer, e não se revoltou, nem se entregou, apenas olhou o céu, e nesse momento viu um cordeiro, não grande, nem brilhante, apenas um cordeiro comum, sujo de poeira, comendo mato como se nada tivesse acontecido, e então o céu se abriu, mas não para ele, talvez para o cordeiro, e Eliezer sorriu, um sorriso torto, cansado, irônico, como quem diz, veja só, no fim das contas, talvez ele estivesse certo.
E morreu assim, entre a dúvida e o riso, como morrem os que viram demais.
Nenhum comentário:
Postar um comentário