domingo, 1 de junho de 2025

Da Poesia e do Riso no Reino do Sol

 Da Poesia e do Riso no Reino do Sol


Dizem que o Ceará é a terra do humor, como se o calor, a seca, a fome e a falta d’água fossem pais legítimos da gargalhada, e talvez sejam mesmo, pois ninguém ri como quem já chorou até desidratar, e é nesse solo rachado que nasce o riso, não o riso fácil de auditório com aplauso programado, mas o riso torto, torturado, cínico, cheio de dente e desespero, esse riso que só os cearenses sabem dar, como quem cospe na cara da tragédia e ainda diz obrigado, pois se não rirmos, morremos secos, e se morremos secos, ao menos morremos magros, o que nos dá uma certa elegância de cadáver.

Mas o que poucos sabem, ou fingem não saber, ou preferem não comentar nas colunas sociais dos grandes centros, é que nesse mesmo Ceará do riso vive também a poesia, e não uma poesia qualquer, mas aquela que ainda sai no jornal, em papel, com cheiro de tinta e manchete de crise ao lado, como se Drummond tivesse nascido em Crateús e não em Itabira, como se o cordel tivesse aprendido latim para conversar com Petrarca, e isso acontece toda semana no O Povo, esse jornal que insiste em fingir que o tempo ainda tem tempo, e que o leitor ainda tem olhos que leem e não apenas dedos que deslizam, e ali, entre um editorial sobre o preço do arroz e uma foto de protesto com trinta pessoas e dois cartazes mal pintados, aparece um soneto, uma ode, um haicai, e ninguém pergunta por quê, porque no Ceará poesia não precisa justificar-se, pois já nasce pedindo desculpas e oferecendo água fria.

E o mais curioso, ou tragicômico, ou poético mesmo, é que essa terra do riso fácil e do verso difícil é a mesma que exporta humoristas como quem exporta fruta, com nota fiscal, número de CNPJ e legenda no Instagram, enquanto os poetas ficam por ali, sentados em praças sem sombra, recitando para pombos e vendedores de picolé, esperando que alguém os confunda com loucos ou visionários, o que no fundo é a mesma coisa, e talvez seja melhor ser confundido do que ser compreendido, pois quem compreende um poeta está prestes a virar estatística.

E perguntam, como é possível uma terra que ri de tudo também chorar em versos, e a resposta é simples, porque é a mesma boca que ri que recita, e é o mesmo sol que queima que ilumina, e é o mesmo povo que imita bêbado no palco que escreve alexandrinos na calçada, e se isso parece contraditório, então bem-vindo ao Nordeste, ao sertão, à alma do país, onde nada é só o que parece, e tudo é mais do que pode.

No Sul, fazem poesia com melancolia, no Sudeste com culpa, no Norte com floresta, no Centro-Oeste com boi, mas no Ceará a poesia vem com piada, e a piada vem com lágrima, e ninguém sabe onde termina uma e começa a outra, porque ali o poeta é também palhaço, o palhaço é também profeta, e o profeta, coitado, virou colunista do O Povo, com salário atrasado e fé adiantada.

E talvez seja essa a maior piada do Ceará, a de ainda acreditar que a palavra vale alguma coisa, que o verso pode mudar o mundo ou pelo menos o humor do leitor, que a poesia ainda pode ser lida no café da manhã entre o pão e o desespero, e isso, meus caros, não é pouco, é quase tudo, é mais do que a maioria dos países produz em um século.

Então riam, sim, riam com força, com gosto, com dentes, mas saibam que ali, atrás do riso, tem um poema esperando, escondido entre a caricatura e a crítica social, e quando o riso passar, como tudo passa, a poesia fica, como ficam os ossos quando o circo desmonta e os palhaços vão embora.

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