domingo, 1 de junho de 2025

O Livro do Homem




O homem era seco de carne, mas sonhava molhado: queria escrever o Livro da Vida, com L grande e V tremido, e punha-se de noite no terreiro, caderno no colo, estrela no olho, esperando que o mundo falasse. Mas o mundo é bicho arisco, só sussurra pra quem já sangrou.


No começo, escreveu sobre os nascimentos: a vaca parindo, o menino saindo da mãe com a cara de quem viu Deus, o dia raiando em cor de fogueira. Mas logo cansou da alegria. A alegria é curta que nem suspiro de viúva nova.


Escreveu então das dores: do dente, do amor, do joelho que range, da solidão de dormir sem barulho de outro corpo. A dor falava mais que ele. Tomou conta da pena, da mão, e até do papel, que passou a tremer antes de ser tocado.


Escrevia como quem reza. Mas as palavras não obedeciam. Saiam tortas, zoadas, com cheiro de poeira e morte. O Livro da Vida, viu ele, era livro nenhum, era cobra enrolada, mordendo o próprio fim.


O tempo, danado, passou sem que ele notasse. A barba virou mato, o olho virou cova. Mas ele seguia: anotando o cantar do galo como quem decifra profecia, rabiscando o silêncio do meio-dia como se fosse sentença.


Foi quando começou a aparecer coisa estranha. Primeiro, o nome dele, do nada, no meio da página. Depois, uma data, que era amanhã. E uma frase: “o homem que escreve vive só até acabar de escrever.” Ele riu. Mas doeu.


Sentiu então o peso da última palavra. O papel estava cheio, a caneta, vazia. Faltava só um ponto. Um ponto e acabou. E ele, que tanto quis vida, agora suava morte. Porque o fim tem cheiro de couro molhado e passo de gente que já foi.


Tentou não escrever mais. Mas o livro pedia. O livro é bicho que cobra. É filho faminto. E ele, pai de papel, não tinha como negar. Voltou. Escreveu. E o ponto veio — redondo, negro, pequeno como olho de defunto.


Ao terminar, fechou o caderno. Ou foi o caderno que fechou ele. O vento passou, mais frio que o comum. Os cachorros uivaram. A lua piscou de costas. E ele ficou sentado, sem respirar, feito pedra que pensa.


Depois disso, ninguém mais viu o homem. Só encontraram o livro. Aberto. E na última página, rabiscado com letra trêmula:

“A vida era escrever. E eu escrevi. Agora, sou palavra.”

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