Da Maravilha e da Miséria Carioca
Dizem que o Rio de Janeiro é a cidade maravilhosa e não estão de todo errados, basta subir ao Corcovado, esticar os braços junto à estátua que já os esticou antes de nós, olhar o mar que se dobra à vontade da luz, olhar o morro que sorri com dentes verdes e inclinados, e pensar, ora veja, Deus é mesmo brasileiro, mas esqueceu de assinar a obra, talvez por modéstia, talvez por descuido, ou porque ficou ocupado tentando impedir um arrastão em Copacabana, falhou, claro, como falham os deuses que não andam armados nem têm conta offshore, e foi assim que o paraíso se fez com cartão postal de frente e favela nos fundos, com helicóptero de polícia sobrevoando a brisa, com uma bala perdida achando sempre um corpo achado, e com um sol que brilha para todos, mas que queima mais os que sobem o morro a pé.
E há os turistas, naturalmente, os que vêm com as câmeras, os drones, os protetores solares e a certeza de que estão descobrindo algo que já foi descoberto por Cabral e redescoberto por garotos sem camisa que pedem esmola em cinco idiomas, há também os brancos miseráveis, que não o são por falta de dinheiro, mas por excesso dele, pois não sabem o que fazer com tanto, exceto erguer condomínios com vista para o mar e muros com vista para o medo, que é o que mais se vê no Rio, o medo, o medo do outro, do escuro, do túnel, da bicicleta que passa devagar demais, do menino que olha demais, da senhora que vende bala com olhos de quem nunca mais comeu uma.
E no entanto, o Rio insiste em ser lindo, como uma mulher traída que ainda se olha no espelho e diz sim, me bateram, mas vejam este sorriso, e mostra os dentes como quem mostra a baía de Guanabara, e ali entre o lixo flutuante e o reflexo dos iates, boiam as promessas de campanha que ninguém mais recolhe, porque no Rio até a mentira tem preguiça de repetir-se, pois o calor é muito, o tempo é pouco, e o amanhã é sempre uma ameaça ou uma esperança, nunca um dia comum.
Os pobres dançam, é verdade, e dançam melhor do que os ricos, porque não têm mais nada, nem vergonha, nem futuro, e quando o som vem da viela, o corpo obedece, mesmo ferido, mesmo cansado, mesmo baleado, dança-se, e os corpos se movem como se a alma já tivesse partido, e é nesse rebolar que se conta a história da cidade, não com livros, mas com quadris.
Depois há os assaltos, os furtos, os celulares que voam das mãos como pássaros libertos, e há quem diga que é um absurdo, um escândalo, um horror, e é mesmo, mas não mais horroroso que um homem dormindo na calçada da Vieira Souto, coberto com o saco plástico do supermercado onde antes carregava um litro de leite e agora guarda o nada, e esse homem não voa, não some, está ali, visível como o Cristo, mas ninguém o aponta com selfie.
E há a beleza, sim, não sejamos injustos, há as praias, os corpos dourados, os pôres do sol que dariam inveja a Apolo, e há o samba, que resiste como erva daninha entre o concreto e a covardia, e há a esperança, que sempre acorda cedo e pega dois ônibus, três trens, e ainda sorri na fila do SUS, e há um povo que ainda acredita, ou finge que acredita, e talvez isso seja o mesmo que acreditar.
E no fim do dia, quando o morro acende suas luzes como um presépio torto e armadilhado, e os helicópteros voltam para a base, e os turistas vão jantar, e os brancos miseráveis fecham suas janelas blindadas com vista para o esplendor do medo, o Rio respira fundo, boceja como um deus cansado, e dorme, se é que dorme, pois sabe que amanhã tudo recomeça, e que o crime, a beleza e a desigualdade estão presos num triângulo amoroso do qual ninguém quer se separar.
E talvez, quem sabe, seja essa a verdadeira maravilha, essa insistência do Rio em não morrer, em continuar belo, sujo, amado e temido, como um anjo caído que sorri de dentes quebrados, ou como um rei nu que ainda desfila na avenida, coberto apenas com a ilusão de sua própria glória, mas dançando como se ainda fosse carnaval.
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