domingo, 8 de março de 2026

O RETORNO DOS NOMES


 

O RETORNO DOS NOMES

Fui muitos, como as águas que mudam de rosto

sob o mesmo céu de inverno.

Mudei de nome na sombra,

ali onde o silêncio tece a sua teia de musgo,

e fui outro no dia,

com o orgulho solar de quem carrega o meio-dia nos ombros.

No fim, quando as vozes se cansam de ser ecos,

procurei o repouso das pedras.

Mas vieram as maçãs.

Perseguiram-me com o seu peso vermelho,

com a sua fragrância de pecado e de pomar antigo,

rolando por entre meus passos como astros caídos da árvore do tempo.

Era a vida me cobrando a doçura e o sangue.

Por fim, acordei.

Acordei sobre a terra nua,

onde os nomes já não pesam

e o coração, enfim, entende o seu ofício de ser terra,

raíz e luz definitiva.



O INVENTÁRIO DO FOGO

Nasci em Adamantina, onde a terra se faz joia e dureza,

e eu era apenas um pássaro nu,

um estilhaço de canto sem ninho,

desprovido de raízes, flutuando sobre o pó dos caminhos.

Fui um náufrago de crenças e de léguas.

Vi-me perdido na procissão das sombras:

entre o pranto milenar dos judeus,

o mistério errante dos ciganos,

e o incenso pesado onde católicos e evangélicos

disputam o silêncio de Deus com as suas vozes de metal.

Até a Espanha me feriu,

com suas pedras secas e seu sangue de touro antigo,

cravando em meu peito a sua espada de luz e de guerra.

Mas no centro do deserto, quando tudo era cicatriz,

encontrei o meu porto e minha cinza:

achei um coração de fogo,

não nas igrejas ou nas pátrias,

mas na substância invencível do amor.


O PEREGRINO DAS CINZAS

Pisei as escadas de prata da lua

e o orvalho frio das colinas de outono,

mas as mãos que busquei eram névoa,

e os nomes que chamei eram sono.

Vou vagando em sonhos mortos,

onde a espada de Sato não brilha,

por corredores de tapeçarias gastas

onde o tempo perdeu sua trilha.

Não busco o pão, nem a chama,

nem o ouro que o mercado seduz;

busco o rosto que a noite reclama,

a sombra que outrora foi luz.

Que os deuses das colinas se calem,

pois meu reino é de vento e de ossos;

sou o rei de uma terra de nada,

vago eterno em meus sonhos mortos.


 Vaguei entre elfos e acordei entre o mar
Vaguei onde o crepúsculo tece o linho das fadas,
Sob o espinheiro branco, onde o tempo se detém;
Bebi o vinho das colinas, em taças cinzeladas,
E esqueci que a carne morre e o mundo vai e vem.

Mas o riso das hostes é um cristal que se quebra,
E o sonho da colina é uma pálpebra a fechar;
A magia se esvai como a fumaça na névoa,
E despertei sozinho, entre o sal e o vasto mar.



 A solidão do meu coração oriental
A espada de Sato repousa sobre a seda pura,
Um espelho de aço para um sol que já se pôs;
Busco na curva do bambu a geometria dura
Que separa o eterno do que restou de nós.

Meu coração, que outrora foi bardo e tempestade,
Agora se cala na sombra de um pagode lunar;
Pois descobri que a paz é uma fria autoridade,
E a solidão, um segredo que o Oriente veio me dar.





 Lembrei-me dela envelhecida e não chorei
Vi as rugas traçarem o mapa de um fogo antigo,
Onde antes havia o brilho de um triunfo solar;
A beleza que outrora fez do mundo seu inimigo
Agora é uma sombra mansa, cansada de lutar.

Lembrei-me de sua face, outrora altiva e estranha,
E do orgulho que nos fez perder a voz e a vez;
Mas não chorei o tempo, nem a cinza que o acompanha:
Amei a alma que a ruína, enfim, nos revelou com lucidez.





 A escada de caracóis
Subo os degraus de pedra da torre em ruína,
Onde o vento da noite sopra um hino ancestral;
A escada de caracóis, em sua espiral divina,
Leva o homem ao encontro de seu duplo imortal.

A cada volta, a terra se faz pequena e obscura,
A cada degrau, o sangue se transmuta em luz;
Pois o topo da torre não é a morte, mas a altura
Onde o Eu se despoja de tudo o que o seduz.



 Valsa meu peito
Ritmo de osso contra o osso.
O tórax:
Uma caixa de música quebrada.



 Porque choro?
Sal sobre o ferro.
A chuva não pede licença
Ao rosto de mármore.



 Até o jardim do éden na áfrica
Sol vertical.
A argila vermelha entre os dedos:
O primeiro hálito, o último pó.



Vi seus olhos nus de peixes
Duas moedas de prata
No fundo do aquário.
Um olhar sem pálpebras.



Para um coração chorar é preciso beijos
Pressão labial.
A válvula se abre:
Sangue e água na fenda.



 Não se esqueça de dizer adeus para elas
Luvas pretas sobre o balcão.
O perfume que fica
É o único corpo que resta.



As putas de paris são felizes
Riso de absinto.
Meias de seda na sarjeta:
A moeda brilha no escuro.


 A NEGRA que me ensinou o amor
Ébano vivo.
O mapa do mundo
Traçado em suor e obsidiana.




 O anjo caído sou eu
Asas de chumbo no asfalto.
A queda
É o único vôo que não mente.

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