quarta-feira, 4 de junho de 2025

Rostos Quebrados em Cor

 



I.
A linha não pede licença — ela invade.
O traço é grito, não moldura.
Quem espera forma, vê miragem.
A beleza está na ruptura.

II.
Azul em angústia, vermelho em guerra,
um olho onde devia haver sol,
uma boca no alto da testa.
Quem disse que o caos não tem farol?

III.
Cavalos quadrados, torres ao contrário,
a mão pinta o que a alma implora.
Não é o mundo — é seu eco refratado
na febre que o pincel devora.

IV.
A mulher de três olhos chora
por um amor de sete narizes.
Ela não existe, mas vive
nos cantos onde a ordem desliza.

V.
A cor é ferida e cura,
um punhal e uma carícia.
Cada tela é espelho partido,
cada forma, uma delícia.

VI.
Quem disse que o rosto é um rosto?
E que o tempo anda em linha?
O abstrato é o que resta
quando o real se definha.

VII.
Não se olha: se escuta a pintura.
Não se entende: se entra nela.
É poema sem verbo, sem costura,
é música em aquarela.

VIII.
O quadrado ama o triângulo.
O olho conversa com o chão.
No quadro há uma alma em trânsito,
fugindo de toda prisão.

IX.
O touro dança com o violino,
a sombra ri do próprio fim.
No cubismo há um destino:
ver o mundo de outro jardim.

X.
Não há “belo”, há o que fere,
o que vibra, o que explode.
A arte é o que não se refere,
é o que apenas sacode.

XI.
A infância dos traços brutos,
a pureza do que não se explica.
Um rosto é um mapa de luto,
uma flor com cicatriz mística.

XII.
Assim falou o pincel louco:
"Não quero retrato — quero abismo."
E na tela, um deus sem corpo
sorriu do alto de seu cubismo.

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