O Menino que Virou Listras
Havia um menino de nome Anacleto,
Que usava gravatas e meias de teto.
Mas o que mais amava, com todo o fervor,
Eram listras — oh, listras! — seu único amor.
Listras no lenço, listras no chão,
Listras no gato e no melão.
Pintava os pratos, riscava a maçã,
Fez listrado o céu com tinta e lã.
— “Isso é doença!”, dizia o doutor.
— “É só uma fase...”, dizia o pintor.
Mas Anacleto, sorrindo sozinho,
Fez listras até no seu próprio caminho.
Num dia nublado, sem vento nem riso,
Sumiu o menino — sem traço ou aviso.
Só restaram, no chão, sob a chuva que dança,
Quatro listras imóveis com muita elegância.
Duas pretas de sombra, duas brancas de luz,
Que brilham de noite, que dançam com cruz.
E dizem que às vezes, se o mundo cochila,
As listras sussurram com voz de pupila:
— “Sou eu, Anacleto, enfim transformado,
Não sou mais menino, sou sonho riscado.”
E vive feliz, sem boca nem vista,
Pois mais que um menino... tornou-se uma Lista.
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