O Menino do Suvaco Medonho
Havia um menino de nome Suzé,
Com olhos de vidro e nariz de chulé.
Mas o que o tornava um caso perdido
Era o fedor do suvaco moído.
— "Ponha sabão!", gritava o padeiro,
— "Pendure esse braço num galho de loureiro!"
A escola inteira tapava o nariz,
E até os fantasmas fugiam do giz.
Mas Suzé, coitado, era todo ternura,
Embora seu cheiro matasse a verdura.
Sentava sozinho, sem pão nem pepino,
Comendo tristeza no lanche matutino.
Até que uma noite, ao dormir no porão,
Sentiu um tremor de gosmenta tensão.
Do suvaco esquerdo, escorreu uma poça...
E nasceu dali uma coisa nojosa.
Era uma gosma de cor amarelo,
Com dentes de queijo e voz de libelo.
— “Sou Axilento, teu filho suado!
E vou vingar-te com fedor azedado!”
Saiu pela vila lançando baforadas,
Derretendo estátuas, sumindo calçadas.
Gritavam os tios, gritava a prefeita,
E a cidade esvaziou-se em perfeita carreta.
Ninguém mais ficou — nem mesmo o corvo.
Só restou Suzé, sem ninguém mais ao torno.
E o monstro fedor, que chamava de filho,
Lhe dava carinho, lhe dava um brilho.
— “Agora é só nosso, o mundo e o céu,
Com cheiro de queijo, cebola e mel!”
E assim vivem juntos, em festa e abraços,
Brincando de esconde-gosma pelos compassos.
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