O Menino com Pregos nos Olhos
(um poema para ler com a luz apagada e o coração aberto)
Havia um menino — chamava-se Léo —
que nunca enxergava o que era mais belo.
Pois no lugar de pupilas e brilhos,
tinha dois pregos — ferrugem e trilhos.
Pregados no crânio com muita precisão,
faziam do riso um tipo de prisão.
Os outros gritavam: "Menino esquisito!"
E Léo só pensava: sou só mais um mito?
Seus pais o esconderam num baú antigo,
dizendo: "É feio! Que Deus seja contigo."
Mas Léo, tão estranho, tinha um bom coração,
e ouvia as estrelas baterem no chão.
Na escola dos mortos, tirava dezessete
em matérias sombrias: tristeza e confete.
Mas quando tentava fazer um amigo,
os pregos brilhavam... e davam castigo.
Um dia, cansado de ver só escuridão,
tirou da barriga um velho botão.
Costurou um sorriso no rosto desfeito
e saiu a dançar sem rumo ou respeito.
A vila o viu vindo — um passo, dois pregos —
e fugiu como ratos com medo de egos.
Mas Léo não parou: "Vou encontrar quem me veja,
mesmo que olhem com nojo ou com inveja."
Cansado, deitou-se num campo de espinhos.
Fez deles abrigo, ninho de caminhos.
Ali sonhou leve, entre rosas e gritos,
com olhos normais... ou ao menos benditos.
Dizem que hoje, numa noite sem fim,
se ouve o martelo — toc-toc, bem assim.
E que o menino, com pregos e tudo,
enxerga os segredos que escapam do mundo.
A Menina das Sombras
O Garoto que Chora Insetos
Ele não chorava lágrimas claras,
nem soluços d’alma ou águas raras.
Seu pranto era feito de patas e asas,
de baratas lentas e abelhas sem brasas.
Chamava-se Ígor — nome temido —
nascido no berço de um útero encolhido.
Diziam: “Que horror! Ele fede a formiga!”
Mas Ígor sonhava ter uma amiga.
A cada tristeza, escorria-lhe um bicho:
centopeias saíam do canto do nicho.
Certa vez, uma mosca caiu em seu pão,
e ele disse sorrindo: “Ao menos, é irmã.”
Os outros meninos corriam, gritavam.
As meninas choravam só quando o olhavam.
E Ígor, sozinho, escrevia em segredo
um diário de traças — seu único enredo.
Até que, num bosque, num galho de pedra,
ouviu uma voz que soava sincera.
“Você é estranho, mas também bonito.”
Era a Menina das Sombras, num rito.
Com ela e o Menino dos Pregos na face,
Ígor sorriu — e um besouro voou com classe.
Os três caminharam, figuras quebradas,
por ruas de névoa e almas caladas.
Agora, ele chora... mas nunca sozinho.
Chora mariposas que fazem carinho.
E nos seus insetos, tão mal compreendidos,
há um pouco de sonho. E muitos ruídos.
O Homem-Caixão
(poema para os que dormem com medo de acordar)
Ele nasceu dobrado por dentro,
de ossos estreitos, de quase-nada.
E desde criança escolheu seu assento:
uma caixa escura, almofadada.
Chamavam-no Bento — ou só “O Silêncio”.
Vestia-se sempre de preto-cimento.
Sua pele era pálida, feita de vento,
seu passo, um soluço sem fundamento.
Vivendo num velho caixão de pinho,
fugia do mundo, dos outros caminhos.
“Ali me guardo”, dizia, sereno,
“onde o tempo é quieto, e o toque é pequeno.”
Não ria nem chorava: apenas olhava
as frestas da tampa com olhos de lava.
“Lá fora é barulho, pressa, conflito.
Aqui dentro sou tudo o que evito.”
Um dia encontraram, no fundo do bosque,
o caixão aberto, o mundo em enfoque.
De dentro saiu — não morto, mas lento —
um vulto franzino, morando no vento.
Encontrou os estranhos, os outros sem rosto:
o garoto das lágrimas cheias de insetos,
a menina que dança com véus no pescoço,
o menino dos olhos cravados por pregos.
Disse então Bento, com voz de poeira:
“Talvez... não precise de tampa inteira.”
E dormiu naquela noite no chão da estação,
com metade do corpo ainda no caixão.
Fantasmildo, o Menino das Listras
Ele nasceu de um susto, num só soluçar,
quando a tia-avó tropeçou no altar.
E desde então, vive entre o pó e a crosta,
um garoto espectral com cara de encosta.
Vestido de listras — preto e branco e confuso —
com cabelo de limo e hálito de abuso.
Seu nome era estranho, mas mais estranho era o jeito:
se apresentava assim, num berro sem respeito:
— “FANTASMILDO! encantado! me chama se quiser!
te assombro por vintão, se a alma tiver fé!”
Não queria apenas uivar e assombrar,
tinha um sonho incomum: bioexorcizar.
Estudava com ratos, lia livros em fogo,
tentando tirar vivos do plano, no jogo.
— “Quero ser como o Mestre Besouro!” — dizia,
— “Com charme, com caos, com uma certa poesia.
Mas melhorado, claro, com gosto e ternura…
e uma queda fatal por mulher em sepultura!”
Apaixonava-se fácil por damas defuntas,
fazia serenatas com gritos e juntas.
Declarava amor à Condessa Rachada,
à Espectraluda, à Madame Calada.
Um dia invocou um casal vivo e tonto,
gritou: “Saiam da casa ou pinto o seu pronto!”
Mas os vivos riram — e fizeram café.
E Fantasmildo chorou, num buquê de chulé.
Agora treina poses em frente ao espelho,
pratica possessões e ensaia conselho:
— “Você quer paz? Então vá pra igreja!
Aqui é fantasma, barulho e cerveja!”
E no sótão vazio, onde a sombra se enrosca,
Fantasmildo dança valsa com uma mosca.
Esperando o dia em que vai se tornar
um bioexorcista com alma pra assustar.
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