domingo, 1 de junho de 2025

O medo de se olhar no espelho


(conto em prosa poética, em dez estrofes)

Hoje o espelho me esperava com os olhos abertos.
Não com olhos de vidro, mas com a fome dos peixes antigos,
dos que habitam o fundo do mar e sabem tudo sem dizer.
Toquei sua superfície como quem toca uma ferida
e vi que era minha, mas ainda não doía.

O rosto que ali vivia não era um rosto —
era uma máscara feita de vento,
de noites mal dormidas, de cartas não enviadas.
Ali moravam os beijos que não dei,
os pratos sujos da infância, o medo do pai.

Oh espelho, animal quieto!
Que tens tu que me persegues com minha própria pele?
Por que me mostras o que escondi até de mim,
como se fosses um livro esquecido escrito com meu suor?

Tentei fugir. Fugi sim.
Escondi os espelhos sob lençóis,
meti as mãos nos bolsos como se ali coubesse a minha alma.
Mas o reflexo voltava —
na colher de café, no vidro do ônibus, no olho do outro.

Houve um tempo em que eu era belo.
Não falo do rosto, mas da ignorância.
Eu não sabia que os espelhos sabiam.
Achava que eram janelas — eram fossos.
Achava que eram luz — eram espinhos de prata.

No espelho vi também outros —
meus mortos, meus amantes, meus nomes esquecidos.
Um avô piscou de dentro da moldura,
uma mulher me chamou sem voz,
e até a infância me devolveu seus dentes de leite.

O espelho não julga, mas acusa.
Diz: “Olha, este és tu,
com teus silêncios, tuas sementes não plantadas,
tua alegria escondida numa caixa de fósforos.”
E então cala, porque sabe que me destruiu.

Às vezes, sonho que quebro o espelho com um martelo de pão,
ou com palavras sujas, ou com o riso de um menino.
Mas ele volta, multiplicado,
como água que ri depois da pedra,
como a verdade depois da mentira.

Quem me dera um espelho cego!
Um que me devolvesse apenas o que amo.
Que apagasse as rugas, os gritos, as derrotas,
e deixasse só o poema,
aquele que ainda escrevo com o dedo no ar.

Mas não. O espelho sou eu.
Eu sou a prata, o vidro, a moldura.
E o medo não mora no reflexo — mora nos olhos.
É tarde. Volto a me olhar.
E aceito, como quem aceita a noite, que sou esse homem.

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