Uma história com desenhos que não existem (ainda).
Na última casa da Rua Calder, onde os galhos secos batiam nas janelas como dedos inquietos, vivia uma criança peculiar chamada Mind.
Ele não jogava futebol, não via desenhos animados, e nunca se lembrava de comer lanches na hora certa. Sua paixão — que se confundia com obsessão — era a ciência. Não a ciência dos livros da escola, mas uma ciência antiga, esquisita, quase proibida.
Seu quarto, tomado por tubos de ensaio e máquinas feitas com peças de torradeira, parecia um laboratório de outro século. Ali, escondido dos adultos e das regras, Mind sonhava em fazer o impossível: vencer a morte.
— Para ser lembrado — ele dizia, ajustando os óculos tortos no nariz — é preciso ousar o impensável.
Certa noite, sob a luz amarela de um abajur inclinado, Mind olhou para Bob, seu cão. Bob era pequeno, peludo, e costumava dormir em cima de livros como "A Origem das Espécies" ou "História dos Cemitérios Famosos do Mundo".
— Você será o primeiro — sussurrou Mind, e Bob latiu, talvez em resposta, talvez por pressentir o estranho.
Mind passou horas mexendo em líquidos que brilhavam em tons que não existem na natureza. Finalmente, produziu uma substância viscosa, azul-esverdeada como um lago envenenado.
Bob lambeu a poção, hesitou, tombou.
O silêncio caiu como um cobertor pesado.
Mas não durou.
Uma luz pálida invadiu o quarto, e Bob — ou algo como Bob — se ergueu no ar, transparente, flutuando com olhos que agora brilhavam em vermelho.
— O que você fez, idiota? — rosnou o cão, sua voz parecendo vir de dentro das paredes.
Mind tropeçou para trás, sem palavras.
— Você me trouxe de volta, mas não como eu era. Agora sou... um fantasma!
Bob parecia maior no ar, como se a morte o tivesse inflado com algo maior que raiva.
— Você me roubou a paz! — gritou ele. — E no fim da sua vida, Mind... você não vai ser cientista. Vai ser só um faxineiro de laboratório!
Mind chorou. Não por medo — ou não só por isso — mas por arrependimento. Ele pensou no que aprendera nos livros, e no que nunca tinha entendido: que não se experimenta com o que se ama.
Bob flutuou perto, como se fosse morder. Depois, apenas deu uma mordida de leve, como fazia quando estava vivo, quando queria brincar.
O tempo pareceu parar. Mind olhou para o frasco vazio.
— Talvez eu devesse... tentar outra coisa — sussurrou.
Bob cruzou as patas no ar, sem dizer nada. Apenas o observava.
Na manhã seguinte, os vizinhos disseram ter visto luzes estranhas vindo da janela de Mind. E ouviram latidos que ecoavam como sons de outro mundo.
Mind não tentou mais ressuscitar nada. Passou a estudar as estrelas, os ventos, as raízes das árvores. Nunca falou de Bob para ninguém.
Mas quem passasse perto da casa da Rua Calder, à noite, juraria ver um cão translúcido brincando no quintal.
E um menino com jaleco branco, parado na janela, segurando um frasco... vazio.
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