Charlie Smith e a Escola de Assombração
Na colina mais enevoada da cidade, onde até os corvos se recusavam a empoleirar-se, havia um prédio torto, com janelas arqueadas e uma torre coberta de musgo que parecia suspirar nos dias de vento. Na fachada principal, pendia uma placa enferrujada com letras em espiral:
ESCOLA DE ASSOMBRAÇÃO
Onde o sobrenatural vira dever de casa.
Naquela manhã cinzenta, entre relâmpagos preguiçosos e o som de trovões que pareciam aplausos distantes, chegou Charlie Smith.
Charlie era um fantasma recém-falecido — transparente, flutuante e absolutamente encantado com sua nova condição. Usava um chapéu meio amassado, óculos redondos que não serviam mais pra nada (mas que lhe davam um ar distinto), e um sorriso largo que o acompanhava desde que atravessara sua primeira parede.
Ao empurrar a porta da escola — que gemeu como uma senhora velha contrariada — Charlie entrou no saguão escuro e frio. Havia retratos que sussurravam, armaduras que se mexiam sozinhas e uma tapeçaria que espirrava poeira de propósito.
Sentado atrás de uma mesa de pedra havia o diretor da escola: uma caveira vestida com um manto roxo de veludo, com um broche de osso brilhante no peito. Seu nome, bordado em letras trêmulas no manto, era Diretor Cranioscola.
— Bom dia! — disse Charlie, estendendo a mão alegremente. — Charlie Smith, candidato a fantasma de classe A. Vim me inscrever!
Cranioscola o fitou com as órbitas ocas.
— Isso é uma piada? — disse, com uma voz seca como sarcófago antigo. — Eu não tenho braços.
Charlie olhou para a mão estendida, sem graça, e a recolheu num gesto rápido.
— Ah... claro... perdão.
Apesar da pequena gafe, Cranioscola grunhiu um “bem-vindo” e o aceitou. Afinal, a Escola de Assombração era inclusiva — mortos, semi-mortos, incorpóreos e até ossudos tinham lugar por lá.
No mesmo dia, Charlie foi levado à sua primeira aula: Travessuras Assustadoras I, ministrada por um velho poltergeist chamado Professor Bumbum (ninguém sabia o verdadeiro nome dele — e ele era surdo demais para se importar).
— Hoje, vamos aprender a perturbar os vivos com estilo! — anunciou o poltergeist, gesticulando com as mãos translucidamente tortas.
A turma inteira vibrou. Um fantasminha gorducho girou três vezes e atravessou o teto, uma garotinha fantasma fez o quadro-negro ranger sozinho, e alguém do fundo jogou uma cadeira — por puro entusiasmo.
Charlie não queria ficar pra trás. Com um sorriso travesso, enfiou os polegares nos ouvidos, fez uma careta ridícula, e — num gesto ousado — retirou a própria cabeça do corpo como se fosse um chapéu.
Ele a jogou para o alto e a pegou de volta com a barriga. Depois equilibrou-a como uma bola de cristal no topo do nariz, enquanto rodopiava no ar.
A classe inteira explodiu em gargalhadas fantasmagóricas. Até o quadro-negro escreveu “UAU” sozinho, em letras tortas.
— Extraordinário! — disse o poltergeist, batendo palmas com os cotovelos. — Um talento natural para travessuras!
Charlie corou (ou pelo menos, brilhou um pouco mais que o normal). Pela primeira vez, sentiu-se realmente... vivo. Quer dizer, você entendeu.
E assim começava a jornada de Charlie Smith na Escola de Assombração — onde não se fazia chamada com lista, mas com uivos; onde os professores eram múmias, vampiros e sombras falantes; e onde a regra número um era: Assustar sim. Mas sempre com charme.
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