Era uma manhã comum de terça-feira quando tudo começou. O sol filtrava-se pela cortina da cozinha com a mesma indiferença habitual. Takashi havia tomado seu café — preto, sem açúcar — e lido metade de um artigo sobre crises econômicas no Yomiuri Shimbun. Estava atrasado para o trabalho, mas isso já não o incomodava como antes.
No banheiro do pequeno apartamento no bairro de Nakano, enquanto esvaziava a bexiga, aconteceu algo impossível. No exato momento em que seu jato de urina deveria tocar a água da privada, o que saiu foram... borboletas.
Três delas. Duas amarelas e uma azul-petróleo. Saíram com um leve ruído de papel de arroz sendo amassado, bateram asas em câmera lenta e pousaram na borda do espelho. Takashi ficou imóvel. Não sentiu dor, apenas um frio quase elegante na espinha.
Tentou novamente. Mais borboletas. Uma branca, translúcida, parecia feita de vidro soprado.
No consultório, o médico usava óculos circulares e uma gravata com pequenos ornamentos de peixes dourados. Seu nome era Dr. Nomura, e ele ouvia com uma atenção fora de moda. Quando Takashi terminou de explicar, o médico apenas assentiu.
— Isso é normal — disse.
— Como assim, normal?
— Quero dizer... para algumas pessoas. Não há nada errado com seu organismo.
— Mas isso não acontece com ninguém que eu conheça.
— A maioria das pessoas mente sobre o que sai de dentro delas.
Nos dias que se seguiram, Takashi parou de se espantar. As borboletas saíam sempre pela manhã, cinco ou seis, às vezes mais. Não pareciam sofrer. Voavam com propósito, pousavam nas janelas ou desapareciam pela ventilação. Ele começou a lhes dar nomes: Natsuko, Ao, Mizumi. Algumas voltavam à noite e batiam suas asas na sua testa enquanto ele dormia.
No trabalho, pediram que ele se demitisse. Não por causa das borboletas — ninguém sabia —, mas porque ele passava longas horas olhando pela janela, esquecendo de responder e-mails. Começou a andar mais, tomar chá com leite, escutar discos antigos de jazz que achava em sebos.
Um dia, uma mulher se aproximou dele num parque. Usava um casaco verde-escuro e lia um livro de Osamu Dazai.
— Posso fazer uma pergunta estranha? — ela disse.
— Pode.
— Borboletas. Elas também saem de você?
Takashi a olhou longamente, como se visse um sonho antigo tomar forma.
— Só de manhã. E você?
— Às vezes, quando chove.
Eles ficaram em silêncio, observando o céu nublado. Acima deles, duas borboletas dançavam devagar como notas de um piano esquecido.
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