segunda-feira, 23 de junho de 2025

Boquinhas Pintadas - conto

 

Boquinhas Pintadas

(Trecho de uma conversa entre Elisa e Mônica, gravada em fita cassete no verão de 1993)

[Som de risos abafados e um isqueiro acendendo um cigarro]

MÔNICA:
Você jura que não vai contar pra ninguém?

ELISA:
Nem pro espelho.
(uma pausa)
Mas só se você me contar também tudo daquela noite com as duas... como é mesmo que você chamou?

MÔNICA:
Afeminadas. Lindas. Mais mulher que eu, juro por Deus.
Uma delas, a Vera, tinha unhas vermelhas e um jeito de morder o lábio... parecia a Marilyn Monroe no espelho do meu quarto.
E a outra, Clarisse, dançava "Like a Prayer" de olhos fechados.
Foi numa festa de aniversário de um amigo que sumiu em Londres depois.
Eu fui só pra dar um oi, acabei nua entre lençóis cor-de-rosa, bebendo espumante com elas.

ELISA:
E você... gostou?

MÔNICA:
Gostei? Elisa, gostei como quem descobre que o corpo tem mais portas do que janelas.
Uma me beijava os ombros, a outra sussurrava versos de Florbela Espanca no meu ouvido.
Não era vulgar. Era... teatro. Carne em forma de poema.
Me senti dentro de uma canção da Gal Costa, sabe?
“Meu nome é Gal, meu corpo é de sol.”
Ri, traga o cigarro
E você? Vai bancar a santa agora?

ELISA:
Ah, não vou fugir, não.
Lembra o Zelito da bicicletaria?

MÔNICA:
Aquele que tinha um pôster do Stallone no armário?

ELISA:
Esse mesmo. Pois ele me levou pra uma chácara com piscina, churrasco e uma caixa de som tocando só samba antigo.
Tinha mais nove caras. Todos bêbados. Uns bonitos, outros nem tanto.
Mas eu tava com fogo nos olhos e a saia justa.
A noite virou um palco, Mô. Um palco só meu.
Eles eram os aplausos.

MÔNICA:
Dez?

ELISA:
Dez. Um depois do outro, às vezes dois juntos.
Não era amor. Era vingança.
Por todos os domingos que passei fingindo gostar do Fantástico.
Por todos os “não hoje, amor, tô cansado” que ouvi.
Eu fui a tempestade, Mônica. A deusa e o desastre.

MÔNICA:
Você é o trovão.
Mas me diz uma coisa: se arrepende?

ELISA:
Nem um pouco.
Só me arrependo de não ter usado um batom mais escuro.
Aquele vinho sangue que você me deu no Natal.

MÔNICA:
Próxima vez que a gente sair, a gente pinta as bocas juntas.

ELISA:
Boquinhas pintadas, corações lavados.

[Risadas. Barulho de fita rebobinando.]

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