domingo, 1 de junho de 2025

A Balada de Argila e Crocodilo

 A Balada de Argila e Crocodilo

(um conto amoroso bem pouco tranquilo)

Na beira do rio, dançava Argila,
De pele de barro, de riso tranquila.
Veio um Crocodilo, de chapéu na cabeça,
Com olhos de vidro e botas de peça.

“Quer ser minha noiva?”, rosnou com doçura,
E ela aceitou com estranha ternura.
Fizeram festim com minhocas e lodo,
E se amaram num tom absolutamente incomodo.

Na praça de Adamantina marcharam dançando,
Com um uivo, um rugido, as mãos se esfregando.
“É noiva de barro! É noivo dentuço!”
Gritou o prefeito, caindo de susto.

As senhoras desmaiam, os cães uivam alto,
As crianças se jogam num poço de asfalto.
“Que amor esquisito! Que nojo! Que aflição!”
Gritavam os padres rasgando o sermão.

No fim, só restaram os dois no portão —
Ela sem olhos, ele sem coração.
E dizem que dançam até hoje, calados,
Nos sonhos febris dos vivos assustados.

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