Ela apareceu em Paris como uma febre. Não sei de onde veio — talvez do céu, talvez do subterrâneo. Tinha os cabelos da cor da nicotina e os olhos de uma mulher que já viu o fim do mundo e voltou com fome. Disse que se chamava Anaëlle, mas não fazia diferença: os nomes sempre mentem. O que importava era o que ela fazia com os olhos — ela te despia com eles, te atravessava, te redimia e te condenava ao mesmo tempo.
Eu era um lixo humano naquela época. Comia o que sobrava dos bares e dormia com putas que choravam no meio do ato. Mas Anaëlle não era uma mulher. Ou talvez fosse, só que de um tipo que nenhum homem deveria tocar sem morrer um pouco. Quando ela falou comigo pela primeira vez, senti como se alguém tivesse cuspido luz dentro da minha garganta.
Nos amávamos como dois cães envenenados — rosnando, mordendo, pedindo mais. Ela dizia que era uma anja, mas ria quando falava isso. Não ria como uma piada, ria como quem sabe que está dizendo a verdade e ninguém vai acreditar. “Caí porque estava entediada lá em cima”, sussurrou um dia, enquanto desenhava com o dedo no suor das minhas costas.
Fumávamos depois do sexo, como se aquilo fosse só o início da conversa. Ela falava de Deus como quem fala de um ex-amante: com ódio, ternura e uma certa saudade maldita. Eu ouvia, porque não sabia o que dizer. A verdade é que eu acreditava nela. Mas não era fé — era desespero. O desespero de quem encontrou sentido por acidente e sabe que não vai durar.
Havia noites em que ela chorava olhando para o teto. Eu perguntava por quê, e ela respondia: “Porque amar é a única coisa que ainda dói.” Então me beijava como quem tenta apagar um incêndio com a boca. E tudo pegava fogo de novo.
Não existia futuro com Anaëlle. Ela não prometia nada, não sonhava com filhos, nem falava de planos. Mas às vezes escrevia poemas nas paredes com batom — versos sobre asas, sobre quedas, sobre a eternidade sufocada dentro de um corpo quente. Era um tipo de religião indecente, e eu era o crente mais devoto.
Quando ela desapareceu, não deixou carta, nem sinal, nem roupa suja. Só uma pena branca no travesseiro e um cheiro de jasmim que ficou por semanas. Fiquei esperando, feito idiota, como quem ainda acha que os anjos voltam. Não voltam. Nunca voltam.
Desde então, escrevo. Não por amor à literatura, mas porque escrever é a única forma de gritar sem ser preso. Escrevo sobre ela. Sobre nós. Sobre o milagre de se apaixonar por algo que nunca foi feito para durar. As pessoas acham que é ficção. Mal sabem que a verdade mais absurda é sempre aquela que ninguém quer ouvir.
Eu amei uma anja. E sobrevivi. Mas só com a metade que não presta.
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