Sorvete no Labirinto
Num canto esquecido do parque quebrado,
sentava o menino de chifre entalhado.
Metade boi, metade suspiro,
com olhos de musgo e um leve delírio.
Tinha uma rosa de gesso na mão
e o rabo enrolado num velho balão.
Ao lado, em vestido de luto e tule,
sorria a Ana, pálida em azul fosco e rubi.
Ela dizia: “Te amo mesmo com casco,”
e ele mugia baixinho: “Te acho um fiasco.”
Mas riam juntos como corvos em festa,
tomando sorvete na sombra funesta.
O dela era sangue de frutas escuras,
o dele, baunilha com lascas de curas.
Lambiam a vida em colheradas tortas,
enquanto o tempo batia nas portas.
“Queres me dar um beijo, monstro querido?”
“Mas posso partir teu coração partido...”
“Já foi partido por três esqueletos,
um zumbi poeta e dois marionetes.”
Então ele mordeu, com ternura feroz,
seu sorvete derretido em forma de noz.
E a Ana sorriu com os dentes pintados,
tão doces, tão falsos, tão encantados.
O sol afundava num pântano frio,
e os dois se abraçavam com leve arrepio.
O mundo era feio, o mundo era torto,
mas juntos, dançavam em meio ao morto.
Pois mesmo monstros, corcundas e ogros
sentem amor — mesmo em seus destroços.
E até no escuro, no fim do verão,
há um beijo gelado que aquece o coração.

Nenhum comentário:
Postar um comentário