O Tratado Brevíssimo sobre a Comédia dos Sistemas
Dizia-se que o socialismo era belo como uma promessa escrita na parede da fábrica, tinta vermelha escorrendo como sangue operário e esperança proletária, mas esquecia-se, como sempre se esquece, que quem segura o pincel é o homem, e o homem, esse bicho vaidoso de poucas ideias e muitos discursos, logo trocava a tinta pela própria saliva, e cuspia ordens no rosto dos outros, porque governar é cuspir com métrica e chamar de justiça.
Vieram os planos, os comitês, as reuniões em salas sem ar condicionado porque era burguês refrigerar os sovacos do povo, e cada companheiro virou fiscal do outro, e cada sonho virou uma ata assinada com a caneta do medo, porque liberdade demais dava alergia ao secretário-geral, que tinha duas casas, três carros e quatro amantes, tudo em nome da igualdade.
O socialismo falhou não porque fosse errado, mas porque foi tocado por homens que acreditavam mais no espelho do que no coletivo, que amavam a palavra revolução mas odiavam a ideia de dividir o sofá, e assim distribuíram tudo, menos o poder, e guardaram a utopia dentro do cofre com senha de seis dígitos e foto do Lênin ao lado.
E então a multidão, cansada de promessas sem pão e hinos sem ritmo, decidiu dar uma chance ao velho capitalismo, esse sistema que já chegou suado, de gravata torta e sorriso de corretor de imóveis, oferecendo progresso em suaves prestações e dizendo que tudo tinha um preço, até mesmo a saudade.
O capitalismo é mais honesto, diziam alguns, porque ao menos admite que vai te roubar, e realmente o faz com elegância, com nota fiscal e recibo digital, te oferecendo dois produtos pelo preço de três e um plano de saúde que não cobre doença, mas cobre perfeitamente a sua desistência de viver.
É um sistema eficaz, não se pode negar, porque transforma cada miséria em entretenimento, cada falência em reality show, e cada lágrima em like, é o regime do espetáculo, onde o circo não vem depois do pão, vem no lugar do pão, e o povo, faminto, aplaude com os ossos da mão.
Há quem diga que o capitalismo promove meritocracia, e é verdade, desde que você já nasça com o mérito herdado em nome, sobrenome e conta bancária, porque o resto vai correr a vida toda numa esteira rolante, olhando o sucesso dos outros como se fosse promoção de loja que não entrega no seu CEP.
No fim, tanto socialismo quanto capitalismo funcionam para quem os manipula, os primeiros se dizendo irmãos até o poder chegar, os segundos te chamando de cliente enquanto te vendem a ilusão de escolha, um te promete o paraíso depois da luta, o outro te dá um cartão de crédito com juros de milagre.
E nós, os do meio, os de baixo, os do canto da tela, seguimos assistindo a novela da História, onde o vilão é sempre o outro e o final é sempre adiado, enquanto tomamos café amargo, rimos de memes revolucionários e esquecemos por um instante que a revolução mesmo começa quando você desliga o wi-fi.
Mas lá no céu, onde não há governo nem imposto, nem bolsa de valores nem comitê central, as árvores crescem sem pauta, os pássaros cantam sem partido, e os rios fluem sem plano diretor, porque a natureza, essa comunista silenciosa, capitalista generosa, vive em harmonia sem precisar vencer eleição, escrever manifesto ou cobrar aluguel da luz do sol.
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