domingo, 1 de junho de 2025

O medo de se olhar no espelho

 O medo de se olhar no espelho


Ela não queria levantar-se. O lençol colava na pele como uma segunda epiderme, suada, pegajosa, cúmplice. O sol já entrava pela janela com a violência dos que querem ver, forçar os olhos, invadir. Mas ela não. Não ainda. Levantar-se era expor-se, e expor-se era ver-se, e ver-se era enfrentar aquilo que todos evitam: o reflexo.

No corredor, o espelho esperava, fixado na parede como um carcereiro com olhos de vidro. Um olho só, basta, grande demais, côncavo e sem perdão. Ele não mentia. Ela sabia disso. A verdade mora nos espelhos como a lepra mora na pele: aparece sem aviso e corrói.

Quando era pequena, a mãe dizia: “Não se olha demais no espelho, menina, ou ele rouba sua alma.” Mas a alma já não lhe pertencia. Fora sugada, lentamente, pelos anos, pelos olhares dos outros, pelas palavras secas dos homens que diziam amar, mas queriam moldar.

Vestiu-se devagar. O tecido da blusa arranhava o ombro como se punisse o corpo por ainda existir. O espelho ainda estava lá, claro. Sempre esteve. Esperando, rindo talvez. Seria possível que ele risse? Não com som, mas com presença. O riso do espelho é a revelação.

Ela passou por ele de lado, num ritual ensaiado. Olhar direto era como cair num poço, e ela já tinha caído muitas vezes. Sabia o que vinha depois: o rosto que não era mais o seu, as rugas como rachaduras num vaso barato, os olhos que não pediam, mas acusavam.

Um dia, o espelho a chamou. Não com voz — os espelhos não têm voz, eles são feitos para calar —, mas com um sussurro de luz, um tremor no canto do olho. Ela voltou. Não queria, mas voltou. E então viu.

Não era ela. Era a outra. Aquela que sempre esteve ali, escondida na dobra da bochecha, na curva do queixo, no fundo da pupila. A que odiava, a que invejava, a que gritava sem som. A mulher no espelho sorriu. Um sorriso seco, cruel. Um espelho nunca sorri por compaixão.

Ela tentou virar o rosto, mas não conseguia. Os pés presos ao chão como raízes, as mãos inúteis como luvas vazias. O espelho era agora a única realidade possível. Tudo fora dele era sombra.

A mulher no espelho começou a falar. Não com palavras, claro. Com imagens. Mostrou-lhe cada erro, cada mentira dita por medo, cada desejo sufocado. Mostrou-lhe a face verdadeira — aquela que ninguém quer ver.

Na manhã seguinte, o espelho estava trincado. Não quebrado, só trincado. Como se tivesse engasgado com algo. Ela não se levantou. Não mais. Não havia mais corpo, só o medo — e o medo, este sim, se ergueu.

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