O Lamento do Menino Agulhento
O menino Agulhêncio, de olhar pontiagudo,
Tinha olhos de ferro, de furo agudo.
Piscava com zumbido, girava sem fim,
E cortava a manhã como um bisturi ruim.
— “Que olhos tão lindos!” — dizia Donatela,
Até tropeçar numa poça amarela.
Morreu num suspiro, de riso invertido,
Com o coração feito nó retorcido.
Veio depois a gentil Fibelina,
Que usava sapatos de pele de sardina.
Beijou-lhe a testa com ternura e zelo,
Mas virou tapete num átimo belo.
Depois foi Tristula, feita de vidro,
Que amava Agulhêncio com charme tímido.
— “Teus olhos são portas de mundos sutis!”
E caiu fatiada em noventa e três riz.
Agulhêncio chorava, mas fura ao chorar,
Pois lágrima sua podia costurar.
Costurou os lençóis, costurou as vizinhas,
Costurou três planetas e dez tartaruguinhas.
— “Amor não é meu, não sou de ternura...
Meus olhos não veem, apenas perfuram.”
E num espelho de prata, num baile lunar,
Costurou seu reflexo até se apagar.
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