Yehuda chegou a Tóquio no fim de setembro, quando as cigarras já tinham morrido e os cafés voltavam a tocar jazz sem culpa. Era uma viagem de pesquisa sobre judeus sefarditas que se haviam exilado em Nagasaki no século XVI, mas logo entendeu que não havia muitos arquivos, só silêncios. No entanto, o silêncio do Japão lhe agradava: lembrava o da sinagoga vazia de sua infância em Petrópolis, ou o da casa onde sua mãe rezava em ladino, entre orações murmuradas e berinjelas no forno.
Foi no quarto dia, enquanto comia um soba frio em um restaurante subterrâneo, que viu Li. Ela usava um casaco azul e lia um livro de Mishima com a delicadeza de quem toca um violino esquecido. Seus olhos eram escuros, e seu silêncio era mais profundo que o de qualquer santuário.
“Você é judeu?” ela perguntou em português surpreendentemente calmo.
“Sou,” ele disse. “Como você sabe?”
Ela deu de ombros. “Sei. Sonhei com você.”
Nas semanas seguintes, Li e Yehuda começaram a se encontrar à noite, sempre perto do Rio Sumida. Ela dizia pouco. Ele falava demais, como quem teme o vazio entre palavras. Ela o escutava como quem recolhe fantasmas com uma rede invisível.
Certa noite, Li o levou a um templo esquecido, onde o céu parecia maior que o mundo. Sentaram-se no chão de madeira gasta. “Você acredita em fantasmas?”, ela perguntou.
“Sou judeu,” disse ele. “Acredito em culpa, o que é quase a mesma coisa.”
Li riu, depois apontou para o céu. “Lá vivem os que não foram lembrados. Eles nos observam. Às vezes, tomam forma humana, só para amar uma última vez.”
Yehuda a olhou. “Você é um deles?”
“Talvez.”
“Mesmo assim, eu te amo.”
Ela o beijou com os lábios frios, como se o vento do céu descesse por sua boca. Ele fechou os olhos. E quando abriu, estava sozinho no templo. Nenhuma pegada. Nenhuma sombra.
Procurou por ela nas noites seguintes. Vasculhou becos, bibliotecas, santuários, sonhos. Mas Li não apareceu mais.
Hoje, de volta ao Brasil, Yehuda diz que tudo foi real. Ou não. Às vezes ele jura ter visto um casaco azul no meio da multidão da estação da Luz. Outras vezes, acorda com o cheiro de chá verde no ar.
Mas toda vez que olha o céu — seja em São Paulo ou Jerusalém —, ele acredita que os fantasmas existem. E que às vezes, nos beijam.
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