segunda-feira, 23 de junho de 2025

dois pintores


Mondrian

No branco a linha se impõe,
pretas margens, cortes, prumo.
A cor não vaza nem sonha:
respira o quadro sem fumo.

O azul fica onde foi,
não se espalha nem se nega.
O vermelho é contido,
não desliza, não se entrega.

Tudo é cálculo e estrutura,
frio projeto de silêncio.
Uma arte que perdura
por conter seu próprio incêndio.

Cada tela: arquitetura,
de um mundo sem ornamento.
Pinta o seco e a fissura
com rigor e pensamento.

Nada sobra, nada falta:
é o exato, o suficiente.
Mondrian, régua que salta
entre o abstrato e o presente.


B


Picasso

A cara em corte e em plano,
o olho posto de perfil.
Nada é rosto: tudo engano
de faceta, sombra e fio.

O traço fere e revela,
o gesto rasga a figura.
Cada tela é uma janela
para a carne em estrutura.

Boca acima do cabelo,
nariz reto feito lança.
É da África o modelo
da guerra dentro da dança.

Fragmenta o corpo e o tempo,
recompõe no estilhaçado.
Há beleza no tormento
e no feio equilibrado.

Seu pincel não pede pena:
não é lágrima ou perfume.
Pinta o osso, a veia plena,
o grito seco do lume.

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