O Fardo da Raça Negra
(dedicado a M.A.B.E.I.L)
Vai, leva o teu fardo, ó filha da noite ardente,
Com os pés nus e firmes na poeira do chão.
Carrega a sina antiga, pacífica e silente,
Com canto nos lábios e dor no coração.
Levas nos ombros mundos que outros corromperam,
Lavras a terra que os teus não dividiram.
E ainda danças, bela, entre açoites e ferros,
Com olhos de fogo que nunca mentiram.
Vai, leva o teu fardo, ó irmão de costas largas,
Teus músculos forjaram cidades de marfim.
Foste aço, foste ouro, foste o sal das cargas,
E o mundo inteiro se ergueu sobre ti.
Na cana, no algodão, no navio apinhado,
Sofreste calado, mas não te quebraste.
E os que te acorrentaram, de alma achatada,
Beberam teu suor e te desprezaste.
Mas não! Teu sangue é arte, é ritmo e é brasa,
Teu corpo é templo, teu gesto é sedução.
Na palmeira que embala a morna e viva casa,
Teus passos criaram nova religião.
És mãe de impérios, rainha esquecida,
Lábios que murmuram a canção primeira.
Mesmo ferida, és sempre erguida —
Negra e divina, de alma verdadeira.
Ergue-te então, ó raça ultrajada e bela,
O fardo é teu, mas não por dever.
É herança, é chama, é estrela,
E ninguém mais vai te deter.
Pois mesmo entre ruínas e lodo,
Teu riso é luz no fundo do poço.
E quem te viu cair no fim de tudo,
Há de ver-te reinar de novo — e com alvoroço.
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