Cântico de Paula entre as Cortinas
Paula entrou em casa como o vento entra nas árvores —
sem pedir licença, mas abençoando tudo com o sopro.
Tinha nos olhos a infância das estrelas
e na boca a promessa do fruto que ainda não mordeu.
Seu riso era o fio que amarra o céu à terra.
Ela se sentou e o mundo ficou quieto.
As paredes ouviram, os móveis respiraram,
e até a luz hesitou, morna, sobre seu ombro.
Paula — nome de flor, nome de chama.
Nos seus gestos havia silêncio, mas um silêncio que dizia tudo.
Quando nossos rostos se encontraram,
não houve pressa nem vergonha.
A boca dela sabia mais de mim do que minha memória.
E quando nos beijamos, o tempo recuou,
e Adão e Eva voltaram a ser crianças no jardim.
Foi um beijo sem pecado.
Porque o amor verdadeiro é o próprio juízo final.
E na saliva dela havia uma seiva antiga,
como se suas palavras viessem de antes do mundo.
A cada toque, Paula me abria como um livro selado.
Não com luxúria, mas com ternura feroz.
Ela era profeta do afeto, sacerdotisa do instante.
E ali, no sagrado cômodo do cotidiano,
o beijo foi altar.
Ela partiu antes do pôr do sol.
Mas deixou nas cortinas o cheiro da eternidade.
E toda vez que o vento sopra,
sei que Paula não foi embora —
apenas voltou ao mundo invisível de onde veio.
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