Benedito era preto retado,
De alma forte e pé no chão,
Sabia ler no silêncio
E ouvir o som do sertão.
Quando a Morte veio buscá-lo,
Ele fez só um sinal com a mão.
— "Espere, dona Morte, espere,
Deixe eu terminar meu café,
Tenho um galo pra alimentar
E uma reza de São José.
Depois, se ainda quiser,
Leva meu corpo de pé!"
A Morte, meio sem jeito,
Sentou na sombra e escutou.
Benedito, com fala mansa,
Um cordel lhe recitou.
Tinha tanta graça e ciência
Que a Morte se encantou.
— "Está bem, seu Benedito,
Por hoje eu deixo passar.
Mas cinquenta anos justos
Depois venho lhe buscar!"
— "Cinquenta? Fechado, dona,
Mas venha devagar."
Hoje em dia, lá no sítio,
Ele conta essa façanha,
Rindo com os pés na rede,
E uma cachaça da ronha.
A Morte? Dizem que passa,
Mas nem olha a casa estranha.
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