quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Warner sem Limusine

 


Warner - quadrinhos

 


Warner sem Limusine

 


Warner

 


Warner

 


Warner sem Limusine - tirinha em quadrinho

 


A Barata - conto fantástico

para Kafka, pelo alívio cômíco da situação....


            Acordou com as pernas para o ar, tateando o teto invisível do quarto com dezenas de antenas trêmulas. O corpo era duro, quitinoso, castanho e reluzente. Tentou gritar, mas o que saiu de suas mandíbulas foi apenas um estalido seco, um atrito de carapaças. Mariana, a modelo mais requisitada da agência, não estava mais lá.             Restava apenas um inseto.

            Olhou-se no espelho do armário. O reflexo era repulsivo, mas ela precisava  viver. A luz do sol entrava rasgando a cortina e o relógio corria tic-tac sobre a parede. O mundo não espera a metamorfose de ninguém para a surpreender.

    Colocou os saltos altos com a ponta de seis das suas patas, desceu pela parede do prédio e pegou o metrô. Ninguém notou a diferença. No vagão lotado, o asco habitual dos passageiros apenas se intensificou. Uma senhora afastou a bolsa, enojada, e murmurou:

— Que nojo, barata nojenta. Volte para o esgoto de onde você veio, sua desgraçada...

Ela seguiu em frente. No estúdio, o fotógrafo a recebeu com um sorriso cínico.

— Perfeito. Essa estética repulsiva está super em alta. Sobe no cubo. Vamos começar o trabalho!

        O ensaio foi uma sucessão de humilhações e cliques implacáveis. Vestida com grifes caríssimas que agora pareciam ridículas sobre seu exoesqueleto, Mariana ouvia os comandos secos: "Mais nojenta", "Mostra essa mandíbula", "Finja que está morrendo de fome".

No intervalo, o produtor a encurralou no camarim. Aproximou-se demais, com um hálito quente e predador, os olhos brilhando de perversão.

— Eu adoro essa vibe de inseto esmagado — sussurrou ele, passando a mão grossa e pesada sobre a carapaça lustrosa dela, num misto de violência e fetiche que embrulhava o estômago. — Você é a minha baratinha hoje. Quanto custa para pisar em você?

Mariana sentiu uma náusea profunda subir pelas entranhas que não tinha mais. Debateu-se, as patas raspando no chão de madeira, o cheiro de mofo e inseticida impregnando o ar. Fechou os olhos com força, desejando com toda a alma que aquilo acabasse.

Abriu os olhos de um golpe só.

            A claridade suave da manhã entrava pela janela do quarto. O teto era liso, branco, sem o papel de parede descascado do sonho. Tateou o próprio rosto com as mãos de pele macia, os dedos normais, unhas bem feitas. Levantou-se cambaleando, respirando fundo o ar fresco, o coração disparado no peito.

Olhou para o espelho. Lá estava ela: linda, humana, frágil e inteira.

            Soltou um longo suspiro de alívio e sorriu, sentindo o alívio morno banhar o corpo. Foi até a cozinha, colocou a água para ferver e ligou a televisão para ver as notícias da manhã.

Na tela, a reportagem policial exibia imagens de câmeras de segurança de uma boate de moda. O repórter, com voz grave, narrava:

— ...o corpo da modelo Mariana foi encontrado nas primeiras horas da manhã, no banheiro do estabelecimento. A perícia aponta sinais de extrema violência e crueldade. A polícia já tem um suspeito detido...

Mariana parou,     a xícara escorregando de sua mão         e estilhaçando-se no chão da cozinha.