terça-feira, 28 de abril de 2026

O Passado

 


O relógio de parede do Bar do Quincas — não o Borba, mas um Joaquim de carne, osso e poucas falas — batia as onze da noite com a fadiga de quem já contou muitos desatinos. À mesa do canto, o Dr. Alcebíades, advogado de causas mofadas e memória seletiva, girava o copo de conhaque como se tentasse decantar o próprio tempo.

— Ah, Joaquim! — exclamou Alcebíades, com a voz pastosa de uma nostalgia mal digerida. — Naquele tempo, sim, havia ordem. O país marchava! Podia-se andar na rua sem o sobressalto de hoje. As famílias eram sólidas, e o civismo, meu caro, o civismo era o pão de cada dia. Que saudade daqueles anos de chumbo... que para mim foram de ouro!

Joaquim, que limpava o balcão com um pano cujo encardido era a crônica da semana, parou o movimento circular. Olhou para o advogado com aqueles olhos de quem guarda o passado não em redomas, mas em cicatrizes.

— Ouro, doutor? — murmurou Joaquim, a voz saindo por entre um cansaço antigo. — Depende de quem batia o metal.

— Ora, não venha com sociologias de botequim! — atalhou o doutor, batendo na mesa. — Havia segurança. O sujeito respeitava a autoridade. O Brasil era um gigante que despertava, as usinas subiam, as estradas rasgavam o mapa...

Joaquim largou o pano. Na penumbra do bar, ele não via as usinas de Alcebíades; via a imagem de 1972, quando o medo entrava pela fresta da porta antes mesmo do sol. Lembrou-se do compadre Sebastião, que sumira numa tarde de terça-feira por causa de um panfleto esquecido no bolso, e cuja mãe morrera anos depois, com os olhos fixos na calçada, esperando um passo que o asfalto devorara para sempre.

— A ordem, doutor — disse Joaquim, aproximando-se do balcão — custava caro. O senhor via as luzes da cidade, mas eu via o preço do óleo subir antes do galo cantar. A miséria, que o senhor diz que não via, escondia-se sob as botas. O senhor sentia segurança porque o seu silêncio era o seu salvo-conduto.

Alcebíades soltou uma risada seca, curta, tipicamente machadiana em sua ironia involuntária. — Bobagem! Quem não devia, não temia.

— Temia-se até o pensamento, doutor. — O dono do bar fixou o olhar no copo vazio do cliente. — No meu bar, naquele tempo, os homens falavam baixo. Não sobre mulheres ou futebol, mas sobre o vizinho que podia ser um "orelha". O medo não era de assaltante; era de quem deveria proteger. E a fome? O senhor se esquece das filas, do milagre que só dava sombra para os donos do altar.

O advogado deu de ombros, buscando no fundo do conhaque a justificativa para a sua cegueira. Para ele, o passado era um quadro retocado, onde as manchas de sangue haviam sido cobertas por uma camada generosa de verniz autoritário.

— O senhor é um pessimista, Joaquim. O que vale é a glória da nação!

— A nação, doutor, são as pessoas. E as pessoas estavam mudas. — Joaquim retomou o pano e o balcão. — O senhor sente saudade da ditadura porque, naquela época, o senhor era jovem e o mundo parecia curvar-se aos seus pés. O senhor não tem saudade do regime; o senhor tem saudade da sua própria importância, que o tempo, esse sim o maior ditador, tratou de confiscar.

Alcebíades levantou-se, pagou a conta com um desdém aristocrático e saiu para a noite. Na rua, o silêncio era absoluto. O advogado sentiu um calafrio, talvez pela brisa, talvez por perceber que, embora o passado fosse o seu refúgio, ele era o único habitante de uma cidade fantasma onde a "ordem" era apenas o nome que ele dava à própria indiferença.

Joaquim apagou as luzes. No escuro, o Bar do Quincas guardava a verdade que os homens de linho preferiam esquecer: que a paz imposta pela força é apenas um cemitério onde a liberdade espera, pacientemente, pela ressurreição.

 

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